1.1.09

Fim


Mas continuarei a escrever à procura de um modo de começar a escrever.

2.7.08

Entre a fecundação e o alívio

Doloroso o dia em que parece que verificamos que sobre a nossa infância já pensámos e escrevemos tudo, embora não mais doloroso do que tudo quanto a visita ao jazigo dos meus avós maternos representa, penosa figuração da ausência daqueles bem-aventurados dias da minha infância. Esta sou eu, em pé, coberta de silêncio ante o jazigo dos que me foram mais queridos. Desponto entre as lajes, pálida e lenta como a serenidade abatida nos dentes de uma criança enferma, e não há senão retratos calados à minha volta, pessoas que narram histórias de boca fechada e olham para mim como se eu fosse o firmamento. Os meus avós, que outrora me esperavam à porta da cozinha a que chamávamos cozinha velha, por ser a cozinha das peças mais antigas que os meus avós cuidaram e não deitaram fora – assim que entrávamos, a masseira à nossa direita; em frente à lareira, o preguiceiro, de todos o móvel mais melancólico; próximo da janela, o aparador que dava apoio ao serviço das refeições -, os meus avós, que então me recebiam junto ao buxo que ladeava a cozinha antiga, surgem, agora, invisíveis e misteriosos por trás de dois dos seus numerosos e longínquos retratos: ao meio do jazigo, o retrato da minha doce avó que parece ter sido fotografada pelo mesmo sol que, na espantosa altura de Verão, dava na força dos telhados e na voadura alegre dos melros; também ao meio do jazigo, ao lado do rosto dela, a fotografia do meu avô que, como todos os outros retratos, me parece sempre como sempre foi o meu avô aos olhos da família inteira: o homem amado da senhora minha avó, sem a qual nenhum de nós poderia atingir o significado intenso de uma infância que, subido o pano da memória, hoje nos surge a todos hialina e verdadeira.
Acumulo esses dias da minha infância como se fossem os legos difusos do Carlitos, desse tempo o meu melhor amigo e que sobre ele os vizinhos julgavam tratar-se do meu primeiro namorado, consideração não de todo errada, uma vez que ainda hoje não vejo de que modo poderei iniciar as horas amorosas senão do jeito como eu e o Carlitos iniciávamos os passos na mesma direcção do compromisso sério das brincadeiras, a direcção que levava ao vaivém dos baloiços, o caminho que levava ao vai e volta das bicicletas.
Diante do jazigo dos meus avós, o efeito que me produzem estas recordações, invocadas também pelo cheiro abundante das tílias plantadas nos caminhos, leva-me aos lugares afastados do cemitério, sitos para lá das nuvens que o horizonte suavemente retalha.
Sou a menina por trás das sebes, debaixo do pequeno alpendre a que só eu chamava o alpendre das glicínias, construído à entrada da sala grande da casa dos meus avós paternos. Sentava-me num banco de ripas por baixo das glicínias que elevadas tombavam sobre a minha cabeça e me lembravam os ideais de Abril narrados pela minha mãe, a quem a memória da sua juventude hoje traz mais saudades da mulher que sonhou vir a ser, do que esperança na mulher a quem o tempo muito feriu. Já nessa ocasião, debaixo de um céu de revoluções perfumadas, eu sonhava vir a escrever tudo o que eu sentia debaixo de um céu de revoluções perfumadas. E se nessa altura eu tivesse tido caneta e papel à mão - coisa de que me esquecia sempre, porque a minha mãe obrigava a que eu e o meu irmão, depois dos trabalhos de casa resolvidos na sexta-feira à noite, guardássemos os materiais da escola em sítio que não denunciasse qualquer espécie de desordem da nossa parte – não fosse ter evitado o desmazelo que muito irritava o espírito zeloso da nossa mãe em assuntos relacionados com limpezas e arranjos da casa, com uma caneta e um caderno nas mãos, já nessa altura eu poderia e deveria ter escrito a minha vida passada nas casas dos meus avós, locais de sagrada inspiração para onde íamos ao cabo da semana; lugar de todas as visões despertas por uma realidade que agora não sou capaz de escrever sem que ingratamente mutile algumas das imagens que de tão essenciais escapam ao desvelo da melhor prosa ficcional. Por outro lado, nada que eu não pudesse ter resolvido com as canetas e os cadernos dos meus avós, não tivesse sido, no entanto, o acanhamento e o medo que, também hoje, me levam a esconder dos outros, e até de mim mesma, o ofício solitário das letras, como se este ofício fosse uma das canções clandestinas que a minha querida mãe ouvia à noite, deitada sobre a difícil esperança dos seus vinte anos.
Sentada no banco do alpendre, semelhante à menina aparecida numa fotografia antiga, durante muitos anos não escrevi nada do que os meus olhos infantis albergavam triste ou alegremente no esconderijo da memória, razão pela qual hoje não sei o que devo fazer com uma dor que, para além de a não escrever, de nenhuma outra forma a sei explicar. De onde virá esta dor e o que significa a existência de uma dor sem explicação que ora me consagra ao desabrigo das lágrimas, ora me entrega ao prazer infinito ocasionado pela visita inesperada das glicínias? De onde me virá esta que sou eu como o puzzle de um espelho? De onde procederá este corpo que nasceu estilhaçado, vocacionado ao espasmo de um silêncio atormentado por um tempo que hoje está doente; e ainda que eu me sinta tão saudável como me sentia no tempo alpendrado da minha infância, como explicar a debilidade de um tempo que outrora foi gérmen de força, parecia a eternidade? Estou saudável, posso dizer que sinto a surpreendente e generosa saúde da dor, no entanto sou incapaz de explicar esta dor que acontece entre a fecundação e o alívio, esta dor que acontece sem que haja parto entre a fecundação e o alívio; uma impressão que escapa à palavra, que acontece em estar prestes a acontecer, uma expressão fecunda que me vem do meio, todavia me escapa para as bermas. Não ser capaz de a explicar é como não ser capaz de escrever a sépia destes retratos ou a bondade ardorosa do sol descido ao rosto calado destes que amo e não sei escrever. É não ser capaz de escrever, motivo pelo qual, ao olhar os retratos dos meus avós, neles morro mais depressa do que escrevo. Concebidas para a ausência, estas fotografias devolvem-me uma morte consciente que excede as palavras, como se fosse possível separar o corpo da noção de corpo. Como se a escrita, entre a fecundação e o alívio da morte, não existisse senão para estar prestes a existir.
[sandra costa]

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22.6.08

Falar menos

- Vocês pediram-me que viesse na suposição que um escritor diz coisas interessantes. Esperar que um escritor diga coisas interessantes é o mesmo que esperar de um acrobata que ande aos saltos mortais na rua. Em regra só os artistas medíocres dizem coisas interessantes e tenho uma desconfiança instintiva dos verbosos, dos fluentes, dos engraçados, dos que dissertam, sem pudor, acerca do seu trabalho. Nunca conto a ninguém o que estou a fazer. (...) Falar de quê, se trabalho no escuro e não vejo.
António Lobo Antunes

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9.6.08

Velha com bordão

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[sandra costa. Lisboa/2006]

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3.6.08

Aura

Na ordem e desordem da vida, uma mulher como eu - funâmbula sobre os muros de uma cadeia, que não sabe muito bem de que lado está a liberdade - não conhece muito nem pouco. A ficção é, talvez, a aura do equilíbrio; a realidade é, talvez, a aura da morte.

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27.5.08

Obsessão

Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgámos passar sem tê-los vivido, aqueles que passámos com um livro.
[Marcel Proust. Os prazeres e os dias.]

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23.4.08

A janela da casa

Bato e ninguém para abrir. Dou ao ferrolho da cozinha antiga e vale o mesmo, a casa continua fechada para sempre. Algo que furtivamente viesse aliviar-me o pensamento dos lugares da minha infância agora amortalhados, como aquele lugar à janela no qual, tomando cuidado para não entornar a jarra de gladíolos, de joelhos sobre uma cadeira e os cotovelos apoiados no parapeito, eu não tinha a consciência de que o mundo fosse tão distante e tão furioso como na realidade é; eu ali sonhava, involuntariamente, uma linguagem para o mundo tão próxima das emoções livres e demoradas, como aquelas emoções que um passeio pelo jardim, sob o olhar amoroso de uma mãe, é capaz de convocar. Foi por causa desta casa que eu um dia, inadvertidamente, comecei a gostar das quatro estações do ano. Hoje visito-a e reencontro os gestos de Maio evocados pelo desmaio da chuva na força das parreiras. Olho-a e vejo-me do lado de dentro da casa a olhar pela janela, muito feliz por ter encostada a testa ao vidro frio, a sentir as emoções incompatíveis que uma criança sensível não sabe distinguir e muito menos explicar. Sou eu à janela, tão comovida e tão feita para mim, que a minha situação de hoje, mais vinte anos de horas que o tempo foi desamparando, procura resumir o que fui aos minutos tantas vezes passados naquela janela. O que sou só chega a ser mais do que isto quando apenas isto me basta, bastando-me, por isso, a explicação da ideia invisível da minha infância nas imagens evidentes da minha infância, e que eu agora vejo como outrora via do lado de dentro, sozinha na casa, quando toda a família, semelhante a uma pintura consagrada ao tom quotidiano, conversava do lado de fora da casa sem que ninguém, salvo o olhar nunca desatento de minha mãe, desse fé da minha feliz solidão apoiada à janela. Não compreendia o que falavam entre eles, porque era costume distrair-me com alguns dos pormenores da pintura que eles representavam aos meus olhos e que eu mesma me esforçava por assemelhar a um quadro de Claude Monet, pintor francês de galerias tranquilas: os aventais das mulheres que passavam para o campo; a aba quebrada do chapéu de palha da minha avó bem como a sua cadeira de braços, a maior de todas, que a minha avó ocupava apenas quando as minhas tias insistiam que por uns minutos, não fosse tão intrépida, descansasse as pernas; uma e outra brincadeira dos primos que me desviavam, sem que eu o desejasse, o olhar do leito materno da eira e, mais ao longe, flutuando à margem da cena que os meus olhos enquadravam, o delíquio da luz solar tornada hora a hora à linha recuada do horizonte. Lentamente, o campanário lançava manto sobre manto nas terras da lavoura, anunciando o regresso da noite às mulheres que então passaram para o campo e que voltariam a passar por mim, para que eu as visse novamente a ajeitar o lenço da cabeça e a sacudir as mãos, como que achando maneira de aliviar o corpo do cansaço. A imagem da minha avó principiava a deitar-se nas rendas da noite que o céu, tingido por algumas nuvens, fazia lembrar. Eu assistia a tudo como um farol aceso na orla do mundo, nada se antecipava a quanto por si sem mais eram imagens válidas para mim, as imagens que, no raiar da noite, eu colhia para a luminária da memória, tal como a roupa lavada e perfumada que as criadas, ao fim da tarde, apanhavam da corda e levavam dentro da canastra pronta a ser usada nos momentos diversos a que estava destinada cada uma das peças, a roupa melhor de Domingo, os lençóis das camas, a roupa de cotio. Esta nostalgia, ateada pelos gestos que a estação de Abril para Maio evoca, repete a voz da minha avó; mal posto o sol abaixo da linha do horizonte e antes que todos entrassem em casa e com isso interrompessem o lugar solitário dos meus prazeres delicados, era a voz da minha avó que detinha a noite por instantes no desfecho de uma suíte, para de seguida todos, tios e tias, os vários primos, encaminhar na direcção da porta principal da casa. Eu ainda tinha tempo de penetrar no sono do mobiliário das ruas que me lembrava as páginas de Béraud folheadas nas horas livres da semana; o começo da chama tímida dos candeeiros, a primavera das fontes, os bancos vazios e a cadeira grande da avó deixados para trás. Quando os adultos entravam em casa, nenhum deles assinalava o meu deslizamento, o meu apego àquelas pequenas carícias que nem eu mesma, nesse tempo antigo, achava que um dia poderiam significar o estado inteiro do meu ser derramado das tintas de Chardin, pintor de naturezas-mortas. Vinte anos passaram; vinte anos são as horas do tempo que me separa da menina que no interior da casa assoma à janela em busca dos pormenores do mundo. Hoje olho-a e acarinho-a como se fossem outras mãos tornadas ao meu rosto alegre e agitado. Olho-a para me acarinhar. Julgo sentir-me bem, como se a casa nunca tivesse sido fechada para sempre com pessoas dentro, e para sempre também comigo lá dentro. Eu que moro no tempo que há-de vir dos lugares de ontem, eu que hei-de resgatar um a um, os meus mortos, e a todos darei o lugar evidente da vida, o lugar da entoação dos dias novos da minha infância, aqueles dias espalhados na luz da eira carinhosa; e então, nesse dia, o céu vespertino levantará o ruído que o tempo obrigou ao silêncio da casa, fortalecerá o sítio onde dilatei uma noção de tempo que não sendo eterno tem a duração dos meninos e das meninas deitados de barriga para baixo na areia da praia, ou a duração do meu rosto, no ardor infinito da melancolia, a guardar o mundo no útero de uma janela.
[sandra costa]

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15.4.08

Convicções inabaláveis

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O que me fez melancólica

Os meus pés voltam sozinhos para a cama; olho-os enternecida, o que me fez melancólica? Concebo afectos que não compreendo, alguns deles verdadeiramente insuportáveis a uma alma que, no encalço espantoso dos sentimentos, não sabe dizer tudo. E tudo nunca foi, para mim, mais do que a natureza infinita do colo de minha mãe ou, silencioso sobre os meus livros, o único lenço de minha avó não baixado à terra fria. Faço muitas vezes referência à ideia que representa a minha mãe e a mãe de minha mãe; uma ideia que, antes de ser escrita, é capaz de tudo; uma ideia que, depois de escrita, perde a expressão da imagem e da palavra e morre nua em si mesma. Ao fim de algum tempo, não subsiste da vida mais do que duas figuras femininas, três, no máximo, a seduzir a minha atenção. A mãe, a avó e a menina de cujo rosto gostei muito quando em frente ao espelho eu via apenas uma criança de voz perfumada, acordada na vida para a devoção amorosa. Era eu. Era eu voltada para a vida como as nuvens que acompanham o céu em sinal de intimidade. Eu nascia uma noite de cada vez para que de manhã o mundo me impressionasse um dia de cada vez; nessa altura, tal como o mundo que eu via do lado de fora do mundo, eu aparecia de um enorme mistério, menos vista e mais sentida. Não havia livros, havia sentimentos definidos nas emoções evocadas pelo choro secreto de minha mãe, um choro que eu compreendia sem ler e que hoje precede a inclinação do meu pensamento para as mulheres amarguradas. Amo todas as mulheres amarguradas, sobretudo aquelas que não esperam retribuição por seu rosto tão nobre e tão claro; nutro por elas a mesma afeição pura que nutro pelo corpo de um violoncelo concentrado na alma de uma sinfonia triste.
Fecho os olhos, já se foram quase todos embora e alguém da família resolveu fechar a última janela da casa. Ainda ouço a minha avó, que tinha um sorriso pequenino e acompanhava com as mãos as palavras que dizia, era senhora de uma voz doce e franca; quando falava unicamente para mim não apenas afligia o meu pensamento que, já nesses momentos agora recordados, estranhamente antevia os dias penosos da sua ausência, como nele manifestava o beijo carinhoso da boca de uma mãe levada ao rosto sonolento de um filho. Deitada sobre a coberta branca de renda, eu gostava de sonhar na cama da minha avó enquanto ela me proporcionava o prazer do aroma da costura e da atitude dos seus dedos bailarinos que no meu pensamento, enquanto costuravam, formavam pequenas convicções inabaláveis. Nunca soube o significado da palavra convicção, mas de olhos fechados, no quarto da minha avó, eu gostava de pintar nuvens imóveis dentro da minha cabeça, e também a água da chuva que um dia me fizesse lembrar a sensação de uma tarde de abril anoitecendo na imagem da melancolia de um momento, um momento igual aos momentos que eu costumava viver próxima de minha avó, nunca mais repetidos. Ali, deitada, eu imaginava as pessoas adultas que eu poderia vir a ser quando crescesse, erguia os olhos e sentia orgulho na minha avó, ela debaixo dos fios de luz que o sol crepitava numa das faces do seu rosto e eu, muito perto dela, a formar projectos de melancolia iguais às nuvens altas, limpas e imóveis que eu pintava dentro da minha cabeça.
[sandra costa]

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20.3.08

O texto mais calado

É mais fácil escrever sem as mãos. Todas as pessoas do mundo são escritoras, sobretudo aquelas pessoas que nunca leram Rilke, nem choraram naquela página de Proust que é um manto de palavras sobre as madalenas e as lajes do tempo. Escrever sem as mãos acontece-me quando sei que sou mais, porque sinto que posso ser. A carne frágil das minhas mãos, cheia de febre, é só uma morte espantosa, o que sobra do tempo do mundo que admira o texto mais calado. Olho as fotografias dos meus avós e nelas vejo apenas o silêncio que foi retratado, uma luz que surpreende os meus olhos como se esta decorresse sempre do princípio da noite. Não há um único texto nestes retratos. A minha avó, feita de flor inteira, morreu dentro do meu corpo feito de estilhaços de pétalas e bátegas de vidro; o meu corpo é um buril que desenrola a melancolia. Talvez não importe mais nada a não ser isto. Uma noite longa que me venha consolar de vez em quando com as suas mãos de tecedeira, que me recolha dentro do berço futuro do meu passado, que me faça desaparecer das minhas mãos para as suas.
[sandra costa]

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19.3.08

Pai


«Era um homem de tempos passados e tinha o carácter indefinível habitual daqueles que eram jovens nessa época: um misto de cavalheirismo, iniciativa, autoconfiança, amabilidade e licenciosidade. (…) As duas maiores paixões da sua vida eram as cartas e as mulheres. (…) Um homem irresistível para as mulheres, e de que todos, sem excepção, gostavam – gente de todas a classes e condições sociais, especialmente as pessoas a quem ele desejava agradar. Ele sabia como levar sempre a melhor nas relações com qualquer pessoa. (…) Conhecia os limites exactos do orgulho e da autoconfiança que, sem ofender os outros, o elevavam perante a opinião pública. Era original, embora nem sempre, e utilizava muitas vezes a sua originalidade em substituição da riqueza ou estatuto social. Nada no mundo lhe causava espanto: por mais importante que fosse a situação em que se encontrasse, nunca parecia deslocado. Sabia esconder tão bem dos outros e de si próprio o lado sombrio da vida, com os pequenos desgostos e contrariedades com que todos se deparam, que não se podia deixar de sentir inveja dele. Era um perito em todos os objectos que proporcionavam conforto e divertimento, e sabia utilizá-los. (…) Era sensível e chorava facilmente. (…) A sua vida era tão cheia de divertimentos de todos os tipos que ele não tinha tempo de formar convicções e, além disso, tinha tanta sorte na vida que não sentia necessidade delas. Falava de um modo muito convincente, e esse dom, parecia-me, acentuava a elasticidade dos seus princípios: conseguia descrever exactamente o mesmo acto como uma travessura encantadora, ou como a pior das patifarias.»
[Tolstoi. Infância, Adolescência e Juventude. Que espécie de homem era o meu pai. p.45. Trad. Isabel Sequeira.]
Fotografia: sandra costa. Pai.

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11.3.08

O lado invisível da felicidade

Agora que estou sozinha e pareço um brinquedo partido, aproveito-me para escrever. Tenho a cabeça tão vazia; não existe um livro, uma frase, uma única palavra dentro da minha cabeça. Pareço a casa dos meus avós, fechada, tão frágil como uma grua parada no meio da noite. O que poderá significar uma grua parada no meio da noite? Agora que estou sozinha e posso escrever, pareço um lugar sem horas, parada no meio da noite como a grua triste que em silêncio se levanta do princípio das ruínas. Ao redor da noite o mundo todo ao contrário e os meus dedos, tão ilegais, escrevem por trás do pano das coisas. As flores, por exemplo, ouvem-se quando são despidas para o relento da madrugada. Quando eu era criança, costumava afastar-me para morrer demasiadamente cedo na ária sedosa das glicínias. Sem glória, fui o lado invisível da felicidade entre os adultos magoados. Amei com alegria as coisas tristes; o ladrar dos cães, por exemplo, sempre me pareceu triste quando, à noite, a minha mãe me deixava só na cama do meu quarto. Eu via a minha mãe a afastar-se na direcção da porta e comparava aquele gesto à chuva de abril que, branda, tomba para a distância. Parada junto à margem da cama, muitas vezes eu achava que existia muito antes da minha mãe. Quando anunciaram a morte da minha avó, fui amar o seu corpo sem vida e também aí me achei num lugar onde sempre existi antes dela. Lembro de ter passado a mão nos seus cabelos, de a ter amparado nos meus braços sem fazer barulho, achei que a força do meu corpo de pedra a traria de volta. Dei-lhe colo, enterneci-me intensamente e chorei devagar sem ninguém me ver. Naquele quarto, abraçada a ela, fomos as duas mulheres mais demoradas do mundo. Um brinquedo partido é a plenitude começada no fim da vida.
[sandra costa]

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26.2.08

A verdade

Sabendo que pouco poderá interessar o leitor, falo muitas vezes da falta que sinto da minha avó. No dia em que a minha avó foi a enterrar senti uma dor tão verdadeira que ainda hoje, em lembrando o seu rosto deitado nos tecidos brancos da urna, acredito que a única verdade do mundo nasce do sofrimento de uma perda irreparável. Chorei as rugas da minha avó querida, tão tranquilas em volta dos olhos, que tanto me lembravam a serenidade de um berço amado como a triste herança de um órfão. Eu tinha apenas dezassete anos e nessa altura, tal como ainda hoje, não aceitava a possibilidade de haver conforto na terra húmida, embora já sentisse que o rosto da avó que eu então perdia para sempre daria lugar ao tempo doce das primeiras memórias. Hoje tenho vinte e sete anos e a casa dos meus avós descansa como se nunca tivesse sido habitada. Quando puxado pelo vento, o perfume da enfiada de buxos suspende a suavidade da casa e traz-me uma consolação triste. Sou muito feliz ao pensar na minha infância, embora às vezes me apeteça chorar.
[sandra costa]

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22.2.08

As horas

Philip Glass por Branka Parlic.

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30.1.08

Como se uma infância inteira

Não, já não sou essa menina, agora sou a mãe dessa menina, a avó dessa menina, com um pouco de sorte sou também a irmã mais velha da menina que eu fui. No caminho de casa passo por um parque, sento-me e olho para as crianças de feição a que este texto, todos os meus textos, vos sejam textos simples, cheios de crianças e de velhos. Sento-me num banco de ripas e apetece-me estar ali, calada, como se ninguém desse por mim. Às vezes, palavra de honra, também eu deixo de me ver no banco de ripas sentada, que é quando uma destas crianças é levada ao colo de um velho e juntos partem na minha direcção como se eu nunca tivesse morrido do colo da minha mãe. Hoje sou talvez a mãe da menina que fui, mostro-me o céu cor de madrepérola que o fim da tarde pinta em silêncio e agito o meu pensamento na copa desfolhada das tílias. Explico-me a vontade de chorar por tanta sorte, a sorte de poder amar a solidão dos meus olhos quando estimam as crianças e os passos dos velhos carregados de literatura. Em breve poderei ouvir os melros e esta esperança de ouvir os melros faz-me corar de alegria, como outrora da cozinha antiga me chamavam para dentro e eu, sozinha na eira, tão escondida atrás do canto orgulhoso dos melros. Agora que vos falo da eira, regresso à casa onde havia uma eira e existia eu, sentada no poço, a olhar as mulheres vestidas de preto que passavam para a missa, convocadas pelo corpo timbroso do campanário. O mundo era do tamanho de um pião nas mãos de uma criança doente e, no entanto, nunca me pareceu tão são e tão grande como no tempo em que todo manava nos minutos da eira. Penso em mim. Fui a casa que agora sou, sentada num banco a negar que foi fechada para sempre como se eu tivesse morrido, a negar que a queiram vender como se uma infância inteira não valesse nada. Por trás da gradaria do parque uma criança vem convencer os meus olhos e num instante o toque dela conserta esta dor; enquanto durar esta menina que me olha, eu hei-de amar o mundo que me vende.
[sandra costa]

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28.1.08

Alegria de um pensamento triste

Agora que penso nisto não fui mais do que a menina de uma infância cansada. Falavam a minha mãe dos meus olhos tristes e eu bem sabia, nesse tempo muito nova ainda, que os meus olhos balouçavam no pensamento dos outros meninos como um cavalo de pau a quem o meu avô, que foi carpinteiro, cobriu de melancolia. Pelo menos era assim que eu desejava ver o que talvez de mim vissem os outros meninos, porque a noção que eu tinha do meu olhar associava-a ao pensamento de que eram feitos os olhos do meu avô Francisco, sobretudo no dia daquela tarde de Verão em que todos dissemos adeus à minha avó e só verdadeiramente os olhos dele morriam nos olhos dela, então fechados para sempre. Se hoje recordo o pensamento dos meus olhos – um pensamento que experimentou o soar da alegria no instante das mulheres intensas da lavoura e muito mais no ventre em que nasceu – faço-o porque sou a menina que morreu de uma infância cansada, a mesma em quem agora penso e procuro reter de olhos fechados, certamente o único sentimento de alegria que me resta.

[sandra costa]

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Noli me tangere


[Ivo Batocco. Mãe.]

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27.1.08

O leitor eleito

Para ser escolhido como um dos meus leitores eleitos é-lhe exigido muito pouco: apenas que seja sensível, isto é, capaz de sentir, por vezes, pena da sua própria alma e até mesmo derramar algumas lágrimas ao recordar uma personagem que amou de todo o coração, que se alegre com ela sem se envergonhar, que preze as suas recordações, que seja [uma pessoa] crente, que leia a minha história à procura de partes que lhe toquem o coração e não as que o façam rir, que, por inveja, não despreze um bom círculo de amigos mesmo que não lhe pertença, mas que o observe de uma forma tranquila e desapaixonada - e eu aceitá-lo-ei entre os meus eleitos. Acima de tudo, deve ser uma pessoa compreensiva - alguém que, quando eu vier a conhecê-lo, não precise que eu lhe explique os meus sentimentos e preferências, mas que eu veja que me compreende e em quem todas as notas da minha alma encontrem eco. É difícil, creio mesmo que impossível, dividir as pessoas em inteligentes e estúpidas, ou em boas e más, mas entre a compreensão e a não-compreensão existe para mim uma linha tão clara que eu não consigo deixar de fazer essa divisão entre todas as pessoas que conheço. A primeira característica das pessoas compreensivas é o prazer de conversar com elas - não é preciso explicar-lhes nada e podemos, com toda a confiança, transmitir-lhes ideias vagamente expressas. Há relações intangíveis entre sentimentos para as quais não existem expressões claras, mas que são claramente compreendidas. Podemos sugerir esses sentimentos e relações a essas pessoas. Assim, a minha primeira exigência é compreensão.
[Lev Tolstoi. Infância, Adolescência e Juventude. Cap. Infância. Aos meus leitores. (p.11) Trad. Isabel Sequeira.]

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21.1.08

Que eu sempre sofri dos nervos, senhor inspector

[uma novela de natal em quatro actos e com desfecho trágico]

I acto
Era uma vez um homem muito labrego e era também uma vez a mulher deste homem por seu turno quase fidalga. Ao tempo desta quadra, como já é costumança fazer-se, ambos atravessam o rio no curso da margem direita com o firme propósito de ali se proverem dos presentes de natal, quer na botica quer na livraria. Chegados à margem direita deram últimas instruções ao lacaio para que deles se não apartasse, pois que estava encomendado de carregar uns quantos arráteis de farinha e de apressar o custo da matança dos porcos para esse ano.
Dona Natividade, a mulher, aproveitando os vagares da travessia, apressava-se a rematar as instruções
- Tu agora se te desvias, Clemente, não peças para a boda da Livínia que te alijem o fardo; sempre me faço compreender ou como vem a ser? -
Livínia era a única filhinha do criado, chamado Clemente; criado aluado, mas leal. Enfezadita como a mãe, que Deus haja, muito amiúde Livínia perdia a presença de espírito. Um dia foi dada e achada no espigueiro sem os sentidos da fala e da vista, e pois à coitada lhe valeu o socorro de Bentinho com quem agora se vai à boda e que dando assim fé da moça mais apressadamente se aplicou em abrir as goelas
- Aqui d’el rei que lhe deu o achaque à menina Livinha, ai socorram! - do que em acertar com os suspensórios das calças.
Mas não é para falar dos trapos dos criados e dos padecimentos de suas filhas que vos dou conta desta novela.

II acto
Vamos que Pilatos, o marido labrego, era homem de temperamentos difíceis, mas por toda a aldeia o tomavam por docílimo e que jamais à mulher poderia dar mau viver
- Coitado, ali na lavoura enquanto a mulher dá ao folhetim com as mais outras. -
Um homem pois assim às direitas, com o calo nos dedos à conta da enxada e o chapéu manchado e lambuzado por contas do suor.
Uma vez na outra margem foram-se primeiro à livraria, o local da faísca que o da pólvora anteciparia. (Já vão perceber porquê)
O livreiro, o senhor Mário Péricles, com rotinas estendia sua boca pusilânime à mão da senhora Natividade, cumprimentava pururuca o marido desconfiado e dispunha-se imediatamente a servi-los com ímpetos de venda inflamados
- Para a dama os mais recentíssimos e acesos casos da carne. (dizia-lhe de viés, ao ouvido, conforme empunhava Thérèse Raquin)
- Pela sua rica mãezinha, senhor Péricles, tenha-me agora na conta das razões moderadas, que por causa desse senhor Zola e outros que tais já demasiados riscos corri debaixo das barbas do meu homem.
- Mas leve leve que não se arrependerá. -
- Ora então diga diga o que vai nesse, mas seja ligeiro. (ai a curiosa). - E Mário Péricles, abrindo o livro ao meio como se apartasse as pernas da dama, resume uma história de arrepiar os cabelos, de carnes ruborescidas e apelos da morte, de gemidos e de lágrimas sucedidos em sinistra alcova, de uma melancolia sem fim.
- Leve leve que não se arrependerá.
- Senhor Péricles, que calor de mil diabos me vai já nas carn...
(entretanto, abeirando-se o marido) - Ora bem, para a minha rica mulher quanto vai ser por esta Antologia de Pequenos Contos e outras Prosinhas de Natal? (E aqui começam os engulhos)

III acto

Por tradição, quase tão velha como o natal, tomavam-se de arrelias e teimosias um com o outro - marido e mulher - à conta das prosinhas dele e dela os romances encarniçados; todos os anos se assemelhavam - as prosinhas e os romances, marido e mulher - aos animais afrontados esculpidos em alto-relevo nas fachadas das igrejas.
- Mas o meu marido não entende, senhor Péricles, que estou cansada desses bacamartinhos e bacamartões? Pois este ano, Pilatos, repetirei a dose e levarei comigo o que vossemecê já sabe, isto é, o que eu bem entender que devo levar que tu mais do lagar de azeite entendes que dos prazeres da leitura.
- Pois isto há-de decidir-se este ano. Levarás as prosinhas e ponto final.
- Ai não que não levo. (estirando o braço, dona Natividade leva Raquin à mão do Senhor Péricles) Senhor Péricles, queira fazer o embrulho; muito agradecida.
- Olha que apanhas. (face à ameaça do esposo, atitude estreante para o senhor Pilatos, o livreiro viu-se obrigado a meter a colher)
- Vamos lá cavalheiro, o que vem a ser isto, olhe que "se amarra o cavalo à vontade do dono". Faça a vontade à sua mulher, não vê que em tudo lhe tem sido exemplar. E a senhora dona Natividade, vá lá, cautela não se relampeje, note que "duro com duro nunca fez bom muro".
- Ó senhor Péricles, eu dou à minha mulher o ditado que ela precisa. Olhe que "quem porfia mata a caça".
- O valente, queres ver? "Queres conhecer o vilão põe-lhe uma vara na mão"! (refilou a mulher lançando um riso cínico)
- (o marido batendo as palmas e sacudindo as mãos) Pois muito bem. Faça-se conforme a vontade da minha mulher. Embrulhe lá o folhoso que estou com pressa. -
Mário Péricles fez um embrulho em todo cintilante, como se dali a senhora Natividade fosse levar o ouro ao menino de Belém.

IV acto
Uma vez aviados saíram e já não foram pela botica, tampouco esperaram pelo lacaio. Caminhando às pressas parecia haver neles coisas urgentes a tratar. Sobretudo em Pilatos que, raivando para si mesmo, entrara no barco de trombas feitas. Natividade, vitoriosa, levava mais uma vez a sua avante. Todavia, a meio da travessia
- Faz o favor de deitar essa bodega ao rio em nome da minha honra que eu sou teu marido e te dotei, aliás, como deve ser.
- Como vem a ser o que dizes? (perguntou de rajada a mulher)
- Vem a ser como bem ouviste e não te faças de mouca. Eu à minha mulher hei-de pagar presentes de natal e não de arraial. Ora bota já isso ali para dentro.
- Diabos, nem que me obrigues. Que este lerei de uma assentada pois isto sim que é boa obra, fio-to.
Pilatos apertando a mulher pelo pescoço puxa-lhe a cabeça para fora do barco.
- Tu hás-de fazer o que te mando uma vez na vida.
- Tu estás fora de ti, homem! Larg... (gorgolejou a mulher a custo)
- Teimosa que te mato.
Pilatos, arfando, empurrou-a sem dó, a frio ao rio gelado. A mulher ainda veio à superfície um par de vezes e à superfície parecia rir; certo é que gritava com o livro em riste, sem nunca o largar, ao romance. E gritava acudam e gritava, acabando, ela mais Zola (salvo seja), por se ir ao fundo engolidos pelas águas.
Nesse fim de tarde o senhor inspector interrogava Pilatos, que havia retomado o seu estado habitual tão meigo que ele é para a mulher. Há-as cheias de sorte é o que lhe digo.
- Pilatos, como foi ser este acto crudelíssimo, Pilatos? - Perguntou o inspector, muito atarantado.
- Que eu sempre sofri dos nervos, senhor inspector. Olhe que "o pote tanto vai à bica que um dia fica". E mais lhe garanto pelas alminhas de meus pais em Glória, quando ainda vivo o corpo da falecida vinha à superfície e eu bem via, com estes olhos que a terra há-de cobrir, que ela folheava rindo e dá-lhe que dá-lhe as carnes do maldito livro.

[fim]

[sandra costa]

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18.1.08

Auto-retrato [pormenor]


[foto: sandra costa]

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16.1.08

Anna


Do rosto firme e vazio dos cavalheiros emergia um desejo dominado de ver Anna. Anna apareceu ao alto da escadaria ondulante, anunciando um rosto fino, transparente como uma musselina. O lento ruge-ruge do vestido de seda confirmava, em Anna, os passos de uma mulher que governa por delicadeza, disposta a receber os convidados sem pressa, como se cada um deles, homens e mulheres, fosse o único par do baile. No pátio da casa, a chuva interrompia o remoinho das folhas secas desarrumadas pelo vento e as árvores, nuas e sombrias, agitavam-se numa dança que o breve clarão da tempestade oferecia ao estranho divertimento da noite. Algumas carruagens furavam a tempestade até à grande escada da casa da condessa, ali eram recebidas pelos porteiros que se apressavam a encaminhar para dentro as damas apoiadas nos braços dos convidados. No último degrau da escada já era possível contemplar o perfume dos corpos e das vozes, o tilintar de copos e talheres, o som temperado de um violoncelo; o sarau havia começado. Sempre que podia, Anna fixava-se nos homens mais velhos, resistindo à tentação de pensar nos filhos, que agora dormiam no andar superior da casa, ou em si mesma. Os cavalheiros mais velhos suscitavam nela um agrado descomprometido, a vontade de ser como eles, figuras altas e bonançosas, inclinadas aos prazeres mínimos da vida. Galantemente, estes mesmos cavalheiros acenavam de longe à condessa, entendendo no olhar daquela mulher uma admiração imerecida que os ruborescia. Anna ria e daquele riso secreto abria a curiosidade das mulheres à volta. Algumas dessas mulheres dirigiam, sem medo, a atenção ao poderoso decote da anfitriã, no qual, caindo para a moldura dos seios em bico, o brilho de uma jóia muito simples ofuscava a suprema aristocracia da sala. A voz grave de um criado comunicou a chegada do senhor Mahler, por quem Anna outrora sentira piedade e agora nela despontava a expressão aflita de uma mulher a quem um estranho involuntariamente arrebatou. Ao canto da sala, como fogueiras animadas, fortes gargalhadas estalavam no meio das conversas, ninguém parecia ter dado fé da entrada do conde Mahler. Anna abriu o leque e olhou em frente, agravando ligeiramente o sobrolho como para se achar uma desconhecida entre os mais à procura do seu lugar. – É completamente amável, senhora condessa. – O tom era o da voz de Gustav, que dela se abeirou sem que esta tivesse tido tempo para se recompor e, torcendo levemente o corpo como para se virar, o decote de Anna compôs, inteiro, um prefácio deslumbrante, sugerindo aos olhos do conde a certeza de que todo aquele corpo publicaria o romance mais belo da corte. – Senhor conde Mahler, não esperava que aceitasse o meu convite, sempre tão ocupado. – Nesse instante, soltando risinhos e muito rosadas, várias damas, fazendo-se acompanhar pelo conde Borodín, cavalheiro gordo e de boa facécia, passavam por eles e cada qual emudeceu à sua passagem. As janelas de batentes iniciavam, então, um exterior calmo, já sem chuva, e os ramos das árvores sem agitação pareciam despedir-se dos clarões afastados para um céu mais distante. A noite, essa, adormecia debaixo de um milagroso e gigantesco manto de estrelas.
[sandra costa]
Imagem: James Tissot. Le Bal. 1880.]
[ # I ]

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14.1.08

Houve uma porta que abria

Protegida no meu quarto, mãe, quando doente me trazias o chá quente e os teus olhos. A boca que levavas à minha testa era a tua boca cheia de cura que não ria e aquela dolente maternidade que outrora em toda a infância me salvou, outrossim erguia o mundo ferido em si mesmo; parecias feita de força, mãe, afinal mais de ferida do que de mundo. Abre a porta do meu quarto, mãe, entra por essa porta e leva os teus lábios à minha testa, vê como arde a sombra do meu corpo adormecida nas paredes, repara como ainda sou a menina do colo da tua dor e da origem das tuas mãos. Entra por essa porta, mãe, acaricia os meus olhos se os vires chorar contra o tempo, não permitas que as horas me firam como flechas inimigas e aproxima-te de mim, começa por aquela jarra vazia, enche-a de flores e de beijos, de gotas de água que me lembrem as sinfonias de Mahler e em declínio dulcifiquem a dor que o mundo apressou.
[sandra costa]

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11.1.08

Instalação

Como uma instalação que diz de feição diferente o que já exclamou toda a arte em que assenta. Já me disseram que sou uma instalação. Não sou isso, nem outra arte. Ora me movo demais, ora desapareço; sou o momento em que a emoção quer exclamar, mas cala-se a inteligência.

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7.1.08

Um conto à lareira

Isto sim que é belo.
Por este tempo, instigado pelo encanto das geadas de dezembro, aí por hora terça, eu costumava acompanhar Maria Migas à loja. Íamos pela lenha e sempre aproveitávamos para dar a volta às galinhas poedeiras. Minha avó, que muito acautelava, estendia-nos os mantos
- Aviso-vos que não vades sem eles que hoje sempre vai frio. -
A menina Maria Migas, a quem eu admirava estranhamente seus cabelos desgrenhados, trabalhava para os avós como se servisse a Deus. E da cozinha a roda-viva mais os trabalhos, sobretudo por estes tempos, digo-vos, inspiravam os meus olhos tímidos e a minha boca costumava corar. Eu que gostava tanto desses tempos, em alguns momentos, e muito me recordo, achava-me a sofrer por antecipação a dor que hoje sinto por terem expirado tal como expiram os poetas em fim de vida.
Perguntava amiúde se não tinham sido pintados os pormenores pelo senhor Siméon Chardin
- Quais pormenores?
- … da cozinha, minha avó?
- Não me absorva com as suas fantasias que hoje temos convidados. -
Sem querer aborrecia a minha avó enquanto abandonava os meus dedos em tudo o que abundava; na vidraria, nos talheres, nas bainhas abertas dos linhos das criadas, nos frascos das compotas, nos aventais, nas rendas dos cortinados.
Lembro que na parede, ao alto sobre a mesa dos criados, tinha sido suspenso um quadro pintado pelo amigo de família, o senhor Francisco Ribalta. Tratava-se de Cristo na cruz, abraçando a São Bernardo. Hoje recordo com vaguidade a leitura que meus olhos faziam daquela cena. Cristo, fechando abnegadamente os olhos, não estava exactamente aferrado à cruz de modo que durante muito tempo, isto é: até hoje, aquele homem não me pareceu Cristo; eu cria, nos melosos delírios da minha imaginação, tratar-se de Adónis ferido na anca, em atitude descendente, desabrochando nos braços de um velho um gesto de amor. São Bernardo, esse, retribuía com afecto vigoroso sobre a anatomia deslumbrante do salvador. Os rostos de ambos embutiam na expressão dos criados a ressurreição próxima de um mundo novo. Um mundo repleto de pecado e tranquilidade. Bem que intentou o pobre senhor cura em me abrir os olhos, um dia depois da ceia, atiçado que estava por um brutal ardor catequético
- Eis a verdade, menino. Aquele que ali vê, entregue ao madeiro por gente malvada, é Cristo, Jesus Cristo, filho de Maria e José, filho de Deus Nosso Senhor, redentor do mundo e salv...
Sem ouvir a parlenga até ao fim, senti, lembro bem, abrir-me na anca a mesma chaga de Adónis. A meio da noite fui espreitar a cozinha, Maria Migas dormia à soleira do lume e os dois homens do senhor Ribalta continuavam abraçados como homens e, naquele exacto momento, cheiravam a amêndoa doce ou seria dos cabelos então apurados da criada. Certo é que aquela visão, aliada ao cheiro veludíneo da amêndoa, me despertou, enfim, uma outra parábola que viria a rebater, até hoje, a verdade do senhor cura. Que a cozinha era um sorvedouro de pecado e tranquilidade, isso era, que consolo.
Também por usança, depois da nona, eu solapava-me por baixo da grande chaminé minhota. Maria Migas sentava-se comigo na outra ponta do preguiçeiro e baforava indolente os belos charutos que lhe oferecia o senhor Castilho;
- Não vá o menino, pela sua rica saúde, contar à senhora sua avó.-
ficávamos ali na espiral bailadeira do fumo, afundados na liturgia secreta da hora nona, corando muito sob o crepitar do lume.
A cozinha era um tratado demográfico e eu, não obstante as instruções rígidas de minha avó, proibindo por a mais b que ali me detivesse, perdia-me de bom grado nas lições dos seus habitantes. Em setembro, as tardes de entrega ao mordomo da casa das canastras de fruta da época representavam para mim o momento solene da bagunça. Acorriam a casa de meus avós os caseiros com suas rendas e as frutas maduras, de cujo sumo sinto o cheiro como se ainda escorresse dos meus dedos cansados, constituíam o pagamento mais puro prestado aos senhores mais nobres da terra, os meus avós. Maria Migas trincava nectárea a primeira fruta que lhe viesse à mão e eu, naturalmente, imitava-lhe o arrojo.
Igualmente vos trago, justapostos aos de cima, os vislumbres da doçaria de dezembro. Pelo Natal, a minha avó encomendava serviço - que pagava a peso de ouro - às noviças de um convento erigido nos arredores. A cozinha enchia-se de uma indisciplina sagrada; uma sorte de incenso de canela parecia despir a alma do hábito das sorores; ah, o momento da cítara quando as monjinhas levavam os dedos à boca. Ficava-me a ouvir os risinhos e entoações de louvor ao açúcar. Oh sim, aqueles momentos resgatavam o Cristo do senhor padre do terrível madeiro. Eu divertia-me, sobretudo quando dizia tolices que coravam as esposas de Deus enquanto delas recebia a primeira prova dos doces, a possibilidade de rapar o pote com a colher de pau, bênçãos aos beijinhos na testa
- Sua bênção, irmã.
- Ui, querubinzinho de nosso Senhor. -
Apresso-me, no entanto, a contar-vos a relíquia da cozinha. Deu-se numa das minhas noites sem sono, que eram costumeiras e a elas se referindo meu avô replicava,
- Que pior mal não poderias ter herdado de teu pai. -
mas dizia eu, atravessei em robe de chambre o amplo vão da escada e, como habitualmente diligenciava, fi-lo em bicos de pés pulando até à cozinha onde usualmente dava com Maria Migas adormecida entre as panelas de ferro; mas nessa noite com que salmo fui eu dar. Anestésico e vibrante momento, aquele. O senhor Castilho levava à boca da menina Migas as excrescências da alma, as luxúrias do corpo, que eu bem as ouvi. Arfavam como se tivessem estado a correr um atrás do outro nos jardins da maison; a repentinidade com que o senhor Castilho arremetia sua baixa cintura por debaixo das saias da criada conduzia-me à boca um travo estranho a jejum e prazer. No ar adensava-se o fascínio do canto nono camoniano e o aroma da coqueteria que eu dos romances de meu avô lia à sorrelfa e sem, até então, claramente compreender. Quão larga me soou a lombada daquele volume, tão tratadística a cozinha, da casa a delícia maior.
E se hoje recordo minhas teimas, minha lufa-lufa pela magna dependência, que nem as saudosas imprecações de minha avó me demoviam, é a este ditosíssimo momento a que supinamente recorro para conforto das insónias mais frias de dezembro. Testemunhei, com os dois amantes de Ribalta, a noite mais quente de inverno. E isto sim vos afianço que é bem mais do que belo. Não cuidem, por conseguinte, que a minha memória conserve maiores teres do que estes, os de cozinha. Todos mais hoje serão quebrantos, maleitas de peito, ou o calor de outrora que agora dá lugar a uma lareira fria.
[sandra costa]
Imagem: Siméon Chardin. Rapariga descascando legumes. Parece ensimesmada. c.1740.

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28.12.07

À luz das camélias


Minha avó cerzia muitas vezes ao meu lado, porque eu gostava de me sentar a seu lado durante a promessa daquele gesto de cerzir o tecido como se tecido fosse mundo. Enquanto lá fora dezembro declamava a poderosa luz das camélias, quem quer que fosse, aquela menina ali sentada era eu intensamente. Desde certa noite, uma cadeira ao meu lado, terrível e vazia, faz de mim, todos os dias, esta imagem ordenada na minha cabeça, porque não sei perguntar por outra menina que não seja a menina agora doída de minha avó. Os primos iam à eira espreitar para dentro, chamavam por mim – Tu não vens? – e os meus olhos de recusa escolhiam pontuar o clarão das camélias em silêncio e versar a companhia de minha avó. Hoje não me arrependo daquela demora de tempo, porque à chama das camélias acolhida no regaço da avó eu brinquei o tanto que pude para a boca alegre do meu pensamento, a mesma boca inocente que hoje me pensa um mundo, um mundo que ao lado da senhora minha avó foi a humanidade festiva das crianças.
[Texto e fotografia (Camélia branca): sandra costa]

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20.12.07

Noli me tangere


[Jean-Baptiste Camille Corot. Séc. XIX.]

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19.12.07

Assunto predilecto


Sentada na varanda elevada, Anna encarava o campo e achava-o erudito. Gostava do perfume dos arbustos, principalmente do buxo, que o vento destinava ao pátio da casa, permitindo que auferisse melhor partido das vistas. Já sem os pensamentos insignificantes que a afligiram por muito tempo, Anna, finalmente, sabia como ocupar-se do seu assunto predilecto.
sandra costa
[Imagem: James Tissot. O banco de jardim. 1882.]

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8.12.07

Natureza Morta


[Fotografia: sandra costa. Natureza Morta./2006]

(Clicar sobre a fotografia para ampliar)

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29.11.07

29 de Novembro


«O que entristecia a minha mãe era a minha falta de vontade. Eu seguia só o impulso do momento. Enquanto veio do espírito e do coração, a minha vida, não sendo completamente boa, também não foi verdadeiramente má. A realização de todos os meus belos projectos de trabalho, de calma, de juízo, preocupava-nos sobremaneira, à minha mãe e a mim, porque sentíamos, ela mais distintamente, eu mais confusamente, mas com bastante força, que havia de ser somente a imagem, projectada na minha vida, da criação por mim própria e em mim própria daquela vontade que ela tinha concebido e alimentado. Mas eu adiava-a sempre para o dia seguinte. Achava que tinha tempo, doía-me às vezes vê-lo fugir, mas tinha ainda tanto à minha frente!»
[Marcel Proust. Os prazeres e os dias. Confissão de uma Jovem. p.112. Trad. Manuel João Gomes.]
Fotografia: sandra costa. Mãe. Set./2007

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27.11.07

Com Maria Rilke

Quando no campanário as horas tardias vêm a enterrar no meu peito
inicio o calor das tuas mãos sobre o meu colo.
É em ti que guardo por fim a luz possível do céu negro
e me deito ante a cor branda dos teus olhos.
Tomas-me como se folheasses um gesto longo
e eu nada te digo para em tudo me dar.

(…) Agora arrombo em ti degrau após degrau
E o meu sémen sobe alegre e infantil. (…)
Oh entrega-te, para senti-lo aproximar-se
Porque tu vais ruir quando ele no alto acene.


[sandra costa e Rainer Maria Rilke]

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26.11.07

Tu és melhor do que tu

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor - muito melhor!-
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

[Mário Cesariny]

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25.11.07

A tia Aurora

Eu era aquela hora das tardes de domingo em que o sol, menos preocupado, se despedia dos campos. Enquanto a tia Aurora preparava o chá no interior da casa, durante muito tempo eu permanecia ali, do lado de fora da casa, a aproveitar a minha vida. A minha vida na casa da tia Aurora precipitava o que hoje são as evocações mais ternas da minha infância. Não controlava, então, o dia em que o meu pensamento sozinho, cheio de frio, induziria a descida elevada do aroma das camélias brotado daquelas tardes. É tamanha a melancolia que num instante de prazer se antevê. Hoje, para me consolar da ausência dos olhos da minha tia, recorro à voz baixa da minha memória, ouço-a a evolar-se na passagem do tempo, ecoando ao alto o rumor da antiga criança que eu fui. A graça das coisas, vista da varanda da casa, alcançava-a também a minha querida tia sem que eu necessitasse de interromper o silêncio instalado no meu pensamento, de modo a explicar o que para ambas significava um prazer igual desafecto às palavras que o limitariam se fossem ditas. Por vezes, a minha tia levava as mãos ao meu pensamento, acariciando-o como se recitasse os versos criados pela ramagem tombada das tílias e das figueiras. Esse gesto da tia Aurora cobria a solidão da natureza em volta, deitando os poetas, os mesmos que hoje acompanham a minha solidão, em colo materno. Uma vez regressadas adentro, a casa iniciava uma luz mais ateada na direcção da noite; é desse lugar da noite, onde hoje me encontro, que sou capaz de avistar, perfeito nas mãos da minha tia, o pendor delicado da chaleira.
[sandra costa]

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24.11.07

A coisa do cheiro antigo dos panos

E portanto, mãe, se me debruço à natureza do sofrimento sucede que mais sofro quando penso querer escrevê-lo. Que eu tenho medo quando as palavras se precipitam diante dos meus olhos só por te ver, sentada numa cadeira cosendo pela tarde, segura. Sento-me longe como se longe eu te olhasse de perto. Mãe, na minha cabeça o temporal forte de todas as coisas estremece o chão onde estou e tu serena como um tear. E a tua serenidade passa nos meus olhos como o linho no sedeiro e por isso não vem enfim sedar de vez a minha dor. Gosto dessa caixa de costura, mas porque tenho de nela achar a lividez do meu cansaço? Diz-me que não sou apenas eu que noto na pequena caixa a palidez de um doente. Toma-me nos teus dedos com a bravura de um dedal, protege-me mãe das agulhas que me ferem. Deita-me nas tuas mãos como o napperon que orna a salva. Faz de mim uma coisa sem mais ou talvez não te peça senão a aparência líquida da fiandeira, a simplicidade das linhas, o cheiro antigo dos panos. Desfia-me, ao menos, os abalos um a um e dispõe-me de novo como coisa velha protegida. Mãe, unicamente como coisa.
[sandra costa]
Imagem: Ennio Pozzi. Mulher sentada, a coser.

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Noli me tangere


[Henry Inman. c.1835]

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18.11.07

A dama sem camélias

Habituée dos bailes na villa do conde de Marialva e das estreias de madame Bernhardt, apeou-se em Calais na hora de vésperas. No declínio da rampa, irrompia na figuração oblíqua do seu pé direito conforme levantava desinteressadamente as saias. Esperava-a o conde, notando nela os detalhes de uma coqueteria tão mundana quanto elegante.
- Senhora Gautier, como baloiça, destemido, esse belo exemplar que traz vestido. Delicadíssima, a lanilha.
- Senhor conde, que disparate. Vem a ser hora do chá na maison da senhora Rampling. Sigamos.

Nessa noite a senhora Gautier não surpreendeu, como é hábito, unicamente pelas glórias do corpete. Ao soar das completas, fez-se anunciar no salão nobre e foi tamanho o espanto das damas e dos cavalheiros. Na mão direita os binóculos para a peça de George Sand, na esquerda a caixa dos bombons, vazia. Todavia, nem uma só braçada de camélias. Nem uma só braçada de camélias tomada nos braços, agora amargos, da senhora Gautier.

[sandra costa]
Imagem: James Tissot.

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15.11.07

Mikhail Baryshnikov

Le jeune homme et la mort.

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11.11.07

Geometria humana

Tendo sido lançado à costa de Rodes num naufrágio, o filósofo socrático Aristipo, ao descobrir esquemas geométricos na praia, teria exclamado para os companheiros, segundo se conta: «Tenhamos esperança! Vejo sinais de homens
[Vitrúvio. Tratado de Arquitectura.Trad. M. Justino Maciel.]

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10.11.07

Milho


[sandra costa. Out./2007]

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8.11.07

A queda do tempo

Não sabendo quem sou, nunca minto mais do que sou. Todos os dias ocupo esta verdade menos mentirosa, esta verdade mais difícil do que todas as outras e, no entanto, desinteressada, livre do pagamento das rendas. Não sabendo quem sou, não minto mais do que sou. Não sabendo o que seja a verdade, sei isto por intuição. Não me fabrico nada. Quando o meu pai levou o esperma a minha mãe, o meu corpo nasceu como terra de semeadura. Nele consinto apenas a queda vertiginosa do Tempo.
[sandra costa]

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Tudo em muito Particular






“Mesmo que tu não queiras”, disse ele, “há entre o teu pescoço e a minha boca, entre as tuas orelhas e o meu bigode, entre as tuas e as minhas mãos pequenas amizades particulares. Estou convencido de que não desapareceriam se nos deixássemos de amar (…).

[Proust: Em A Confissão de Uma Jovem. Cap: O Fim do Ciúme. Trad. Serafim Ferreira.]
[Imagem: James Tissot. A despedida -1871-]

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6.11.07

Noli me tangere


[Desenho de Cláudia. Setembro/2007]

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Campo


[Fotografia: sandra costa]

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1.11.07

Aos meus mortos

Tantas vezes refractária ao pensamento dos pequenos vivos, sinto-me propriedade de emoções intensas e deferente às coisas que me dão em melancolia. Hoje volto a casa de meus avós e se nela agora a poalha de todas as portas fechadas eu sento-me enquanto choro sorrindo junto aos buxos e respiro do vento macio encanado nas ruas. Chegando o zimbro das manhãs de novembro eu sei que a leiteira não voltará a passar, embora perdure picando as mesmas horas o mesmo sino da mesma igreja. Sempre vivo grande e fiel o modo como picam os sinos as horas ausentes dos meus mortos de hoje. E mortos são os meus avós e alguns destes que falam de mim nos livros que ao lado do meu corpo se deitam no tempo da noite. Reparem como também eu posso estar morrendo em certos nomes gravados na maternidade dos cemitérios. Porque é também o meu nome naqueles nomes gravado que resvala para a sombra enfurecida das lajes; aqueles nomes tão mortos aqueles nomes que deles o meu se morre. Se eu nasci numa noite de novembro então logo a vida me desatou a matar no meio das pernas de minha mãe; arrancada que fui do túmulo do Tempo fúnebre para unicamente passar a ser um corpo mais em começo de morte. Minha origem é pois este berço cemiterial e se passo meus dias afrontando um conceito de futuro burlado é pelas minhas memórias em luta, como Ulisses, que o faço. Até que um dia meu nome bulirá, como estes jacentes, somente quando acesos os círios à sua frente; então estarei substituindo, sem mais emoções que eu talvez aí morarei eternamente morta, meu sangue antigo no trono do fim. Ah! Morrerei uma última vez e nesse dia será como morrer de morte própria, porque me está já matando o coito amoroso dos meus apelidos velhos para sempre sumidos.
Aos meus mortos - envergando dentro de mim os detalhes de Tissot, veludos e sedas, luxuriante e um livro me basta debaixo do braço; o brado das estações na atmosfera e no meu peito a voz baixa de minhas memórias imperturbáveis - sorrindo da melancolia, levo a ternura das bordadeiras, embarco-me na sua direcção.


[sandra costa]

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30.10.07

A virtude capital

Por isso, os maiores escritores, nas horas em que não estão em comunicação directa com o pensamento, entretêm-se na companhia dos livros. E não terá sido sobretudo para eles, aliás, que foram escritos; não lhes desvendam eles inumeráveis belezas, que permanecem escondidas aos olhos do homem vulgar? Bem vistas as coisas, o facto de os espíritos superiores serem aquilo a que chamamos livrescos não prova de modo algum que isso não seja um defeito do ser. Do facto de os homens medíocres serem muitas vezes trabalhadores e de os inteligentes muitas vezes preguiçosos, não se pode concluir que o trabalho não seja para o espírito uma disciplina melhor do que a preguiça. Porém, encontrar num grande homem um dos nossos defeitos leva-nos sempre a interrogar-nos se no fundo não seria uma qualidade desconhecida (…).
Marcel Proust. Em O Prazer da Leitura. Título original: Journées de Lecture. [Trad. Magda Bigotte de Figueiredo].

[Imagem : James Tissot. [1836-1902]. Octobre.

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25.10.07

Dimensão Humana


Os Jónios levantaram em primeiro lugar um santuário a Apolo Paniónio... Querendo eles colocar as colunas neste templo, não possuindo as respectivas comensurabilidades... descobriram que o pé correspondia no homem à sexta parte da sua estatura, transferindo o mesmo para a coluna...
[Vitrúvio. Tratado de Arquitectura. Cap. IV. p. 161 v. Quinta frase. Trad. M. Justino Maciel.]

Mais atreita à correnteza de ribeiros e regatos, executo, no entanto, a provocação que me cai de João Ventura. De cada vez que João Ventura escreve, instala em nós a viagem. O seu quinto post, como oblongo solitário pensamento, começa assim: Ainda ontem escrevia aqui sobre a natureza deste blogue como construção do eu e marcação do autor, motivação que, mesmo admitindo sem qualquer presunção que outros também aqui poderão ler o que eu tenho para dizer, interessará, sobretudo, a mim mesmo, correspondendo à assunção deste espaço de anotação do que sobra dos dias, dos meus dias, como uma certa cartografia pessoal.
Estimado João, conceda-me, na assunção de uma existência terna e melancólica que para mim busco, o revestimento solitário da minha própria viagem. Por consequência, e certa de que sem prejuízo sobre o navego entre os Homens, compreenderá que jamais poderei agrilhoar, não com a vigorosa tenuidade com que João Ventura liberta as correntes e permite que se expandam os mareantes da intimidade.
[Fotografia: O Homo Bene Figuratus de Vitrúvio. p.127]

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19.10.07

Noli me tangere


[Bambino dormiente. Andrea Solari. (1460-1524)]

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14.10.07

A realidade híbrida dos sonhos


Nas pedras antigas seduzem-me os híbridos; há neles seres embrechados que de certeza não foram homens nem mulheres e, no entanto, intimamente – sobressaindo das feições exuberantes entalhadas na pedra – só eles parecem dominar a gramática complexa do humano: principalmente a linguagem da aparência ardilosa, dos efeitos da obsessão, da agitação passional, do delírio erótico, da fantasia nocturna e vigilante, do grito encoberto, da trepidação vida-morte (duplamente sentida), do avanço ambíguo da heresia sobre a sacralidade, da deterioração do que ainda resta da certeza das coisas e dos Homens. Só eles encerram uma explicação que escapa ao pensamento científico, uma explicação que igualmente rejeita a hipótese mitológica e que atinge, como num sonho, a operante e absoluta evidência da realidade onírica, a realidade mais desperta.
[Texto e foto: sandra costa]
Fotografia: Motivo lavrado na Porta Especiosa da Sé Catedral - a velha - de Coimbra.

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Vestido de seda

O roçagar do vestido de seda da condessa veio distraí-lo.

[Lev Tolstoi. Anna karénina. Cap.XXV. p.526. Trad. António Pescada.

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11.10.07

As primícias das camélias

De repente, as primícias das camélias. E lentamente me sobressalta a memória que da flor da japoneira concede aroma à flor da japoneira. Cheia de uma longa ingenuidade, esta memória. Como o namoro secreto do primo conselheiro com a prima Fernandinha, junto ao tanque, por trás da casa, para lá do horto e das japoneiras.
- Por que chora, prima Fernandinha?
Eu, em outubro, encostava-me ao madeiramento do alpendre e desatava a prever o sabor das tangerinas e as geadas de dezembro. Isto enquanto de dentro minha avó tomava chá com o senhor Mário Péricles, livreiro da casa, perdido de encantos pela mãezinha.
- Minha senhora, permita que lhe leia o que dizem os poetas do seu rosto. – a mãezinha soía corar e logo retomava, a condessa De Seramotta, as formas de um certo requinte.
De repente, das primícias das camélias, as multidões do meu passado detêm-se nos aposentos fechados da minha solidão, como espectros, como os retratos.
- Não chore tudo isso que de provas lhe tenho dado, prima Fernandinha.
Sim, das camélias, minha boa avó, hoje a sombra das camélias sobre a minha dor amputada.


[sandra costa]

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7.10.07

Noli me tangere


[Shaun Ferguson. Books III. 2006]

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5.10.07

As horas dos livros



Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgámos passar sem tê-los vivido, aqueles que passámos com um livro preferido. Tudo quanto, ao que parecia, os enchia para os outros, e que afastávamos como um obstáculo vulgar a um prazer divino: a brincadeira para a qual um amigo nos vinha buscar na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol incomodativos que nos obrigavam a erguer os olhos da página ou a mudar de lugar, as provisões para o lanche que nos obrigavam a levar e que deixávamos ao nosso lado no banco, sem lhes tocar, enquanto, sobre a nossa cabeça, o sol diminuía de intensidade no céu azul, o jantar que motivara o regresso a casa e durante o qual só pensávamos em nos levantarmos da mesa para acabar, imediatamente a seguir, o capítulo interrompido, tudo isto, que a leitura nos devia ter impedido de perceber como algo mais do que a falta de oportunidade, ela pelo contrário gravava em nós uma recordação de tal modo doce (de tal modo mais preciosa no nosso entendimento actual do que líamos então com amor) que, se ainda hoje nos acontece folhear esses livros de outrora, é apenas como sendo os únicos calendários que guardámos dos dias passados, e com a esperança de ver reflectidas nas suas páginas as casas e os lagos que já não existem.

Marcel Proust. Em O Prazer da Leitura. Titulo original: Journées de Lecture. [Trad. Magda Bigotte de Figueiredo].

Desenho: Gustave Courbet (1819-1877). Retrato de Juliette Courbet enquanto criança adormecida.

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1.10.07

1 de outubro

Se a minha avó estivesse viva, hoje faria 93 anos. Não sei como começar este texto. Sei que quero escrevê-lo, que sinto uma vontade doida de ser ouvida pelos seus olhos, leitor. Talvez seja carência. Admito-a, porque no mundo, aqui ou acolá, há de tudo. Ou talvez seja aquele silêncio que grita a dor, já escrito por uma mão cheia de poetas. Sou uma mentira. A verdade que me resta está antes de mim, no lugar que desconheço. Os lugares que eu nunca vi são a verdade. Aquilo que em mim é anónimo é a verdade. Aquilo que em mim não começa a ser é a verdade. De cada vez que escrevo minto, ainda que todas as mentiras que eu sou as seja em nome da verdade que eu desconheço. Tenho a certeza de que há um filósofo à solta em cada letra que escolho para mim e para o mundo. Um poeta também. E também um palhaço cheio de lágrimas. Talvez este texto minta mais de verdade do que todos os outros, porque hoje me sinto longe de mim como nunca me senti. Tão desconhecida que hoje me sou. Os olhos da minha avó eram da cor do musgo do natal. O musgo que eu cortava com as minhas mãos frias e pequenas. Será mais fácil estar morto do que vivo? Não me ocorre uma pergunta mais concreta do que esta. Perdoe-me, leitor. Um morto será menos responsável do que um vivo? Sinto-me tão responsável pelo mundo, como se o mundo fosse um daqueles doentes na cama do hospital. Como se o mundo fosse a minha avó. Que eu não consegui salvar da morte.
[sandra costa]

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29.9.07

Devagar a serenidade

Quero devagar as horas do teu silêncio inclinado no meu peito
Que me leias pausadamente o que foi a luz de outono na aurora das manhãs de ontem
Quero um sono que suba uma escada espiral e adormeça no alto da planura do teu colo
Que me digas do tecido dos teus dedos o agasalho eterno dos sonhos
Quero que me sacudas os medos e me traces a rota dos Homens bons
Que me rasgues de dentro a morte e a derrames aos pedaços na leva do vento
E se não for pedir-te tanto
Repete-me muito devagar as horas do teu silêncio inclinado no meu peito
Faz de mim, devagarmente, a criança adormecida de Pozzi.

[sandra costa]

[Três Estudos para um bebé. Meados do século XVII.
Foi proposta a atribuição a Domenico Fiasella (1589-1669)]

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23.9.07

Pequeno Mahler


[Fotografia tirada entre 1865-1866]

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O caminho do conhecimento

O génio é aquele Ser que já revelou e explicou a nossa vida toda, antes mesmo de morrermos. Gustav Mahler, por exemplo, é um génio. Sempre que o ouço, acompanho o meu nascimento, a minha vida inteira – com tudo o que ela me trouxe de bom e de menos bom - e, por fim, o meu funeral. Mesmo diante de tudo o que fui, não compreendo completamente a explicação de tudo o que fui. A eternidade das coisas acabadas é o caminho do conhecimento.

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22.9.07

Assisto da escrivaninha à largada do Verão


Enquanto talho uma outra pena e preparo as tintas velhas
Assisto da escrivaninha à largada do Verão
Dos meus tinteiros sairão moços e moças no caminho da escola
E os livros deles em cestas lembrarão
O transporte de um Outono mais pobre e desamparado

Não tarda, diz-me a ampulheta, sorrindo a leiteira lamentará o frio e outrora

E eu lamentarei não ser lascada da cepa da leiteira
Pois infrene e atormentada é a minha devoção
A um tempo que cinzento acende devagar as luminárias
E tomando-me nos braços vem deitar-se nos meus olhos
Assim como em Francisco primeiro Leonardo veio encontrar último afecto
Também a mim me cabe a desditosa saudade
De lentamente morrer em colo amigo

E como lamento não ser lascada do assombro dos moços e das moças

Pois quero sem querer com os meus olhos sobre pergaminho chorar
E lavar com o sabor da minha dor
A entrada tão cedo autunal dos meus caminhos
E dos meus passos chorados caminhar
Não sair de mim nem desta melancolia sair
Doerem-me os dedos dos pés sempre de repetente
De repente fazer-me à consciência aventurosa da dor
Sentir-me mais e mais me sentir
Pessoa ou dor
A dor de ser pessoa.


[sandra costa]

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14.9.07

Que dor maravilhosa

Eu nunca poderei ser o que as coisas querem de mim. Não posso ser o plágio de uma cadeira, de certa cama de um hospital, de um cão sozinho, daquele lenço bordado da minha avó ou destas flores aqui deixadas. Que lento, o lenço da minha avó; é Mahler antes de Mahler. Que dor maravilhosa, esta. Mesmo que me fosse permitido sê-lo, não poderia sê-lo. As coisas têm uma voz que eu ouço sem palavras e eu tão inundada de palavras sem voz. Tudo à minha volta chama pelo meu nome sem que eu me reconheça e, no entanto, tão pouco sou e ainda assim, não me podendo ser, também não posso ser tudo. Como de repente o chão me virou as costas, o que faço com estas duas mãos tão caladas cheias de troada? O que faço na ausência de tudo quanto vejo? Choro. Choro apenas para lavar os meus olhos, porque tenho os olhos sujos demais. É por isso que amo as coisas para lá da minha sujidade. É possível amar. Só é possível amar na ausência de tudo quanto vejo, de tudo o que está aqui, agora, mesmo que eu nunca venha a ser o que as coisas, para lá da metafísica da química de todas elas, querem de mim.
[sandra costa]

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3.9.07

Retrato


A vendedora de peixe seco ela mesma expõe o peixe ao sol. Depois, serenamente, cruza os braços e tarda o olhar na desabrida direcção das ondas. Para cá dos olhos, cuidadamente, compadeço-me nos pormenores. O avental, um asseio, como resguardo da saia. Pendendo do pescoço e no abrigo do peito um retrato calado acumula-me de lembranças. O longo rasgo, nas orelhas, dos brincos à rainha fulvos como sol. As rugas, estas rugas como sulcos na terra, transportam-me aos quotidianos da lavoura. Escuro, o lenço. O lenço posto como nas viúvas antigas que não saem à rua em cabelo.
Os banhistas passam, mas nem sempre param. Os banhistas passam, mas nunca reparam. No olhar da vendedora de peixe seco que, solto e a campear, veio como terno repousar o meu.
Neste retrato fica para trás o Verão. Acolá, no sítio ensimesmado onde sentou a peixeira.

[Texto e
Fotografia: sandra costa. Vendedora de peixe seco.]

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31.8.07

Noli me tangere


[Jean-Baptiste Greuze. Le petit paresseux. 1755]

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26.8.07

A invasão poderosa da noite

«Que bonito! - pensou, olhando a estranha concha de madrepérola, formada por nuvens brancas, parada mesmo por cima da sua cabeça no meio do céu. - Como tudo é fascinante nesta noite encantadora! E quando se formou esta concha? Ainda há pouco olhei para o céu e não havia nada, apenas duas franjas brancas. Sim, e também assim imperceptivelmente mudou a minha visão da vida!»
Em TOLSTOI, Lev: Anna Karénina. Ed.Relógio D'Água. [Trad. António Pescada]. p.287.
É Lévin quem, no sossego do campo, pensa. Gosto muito de Lévin.
Acontece-me muito, por antecipação à leitura dos escritores de que mais gosto, sentir o pensamento dos escritores de que mais gosto. Amanhã estará tudo igual, mas, por um instante, a invasão poderosa desta noite parece mudar a minha vida. E eu não sou capaz de explicar a explosão deste prazer.

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22.8.07

Cinema: a explicação do silêncio

Os arquivos da História estão dispersos um pouco por toda a parte; felizmente desarrumados pelo mundo, esses arquivos admitem os fragmentos de um pano de (in)certezas acontecidas (ou não), abrigo de um corpo histórico (Homem) que, na sua totalidade, prefere migrar nu. Dos variadíssimos repositórios de memórias emerge o cinema, sublime arquivo de idiomas visuais, existe para melhor vincular os seus leitores às imagens sem-fim do devir mundano. Imagens que se movem na tela e nos transportam para lugares de fora e lugares de dentro; imagens que, diante de nós, no imediato parecem estar, estar sem mais e, no entanto, oferecem ao nosso imaginário atento a expectativa do lugar inesperado quanto infinito: o lugar longo e volátil do idioma jamais falado. Na sua plenitude, a imagem existe, em suma, para dar lugar à imagem, não escapando, portanto, à sua dimensão mais pura: o silêncio. À impossibilidade de explicarmos por narrativas outras o completo devir humano, a linguagem fílmica na sua projecção silenciosa actua com sucesso sobre o silêncio do leitor projectando-o, ao leitor, na tela, lugar onde, afinal, parece assentar mais possível a explicação do seu próprio devir, o devir íntimo. Em cinema há um movimento universal de transferência de silêncios visuais que anima a desarquivação de toda a História, a nossa e a dos outros, deslocando, por isso, o nosso tempo para o tempo dos outros e vice-versa, aproximando-nos dos tempos e dos lugares que nunca foram nossos, mas nos quais nos identificamos. Por conseguinte, o cinema é justo, porque ilimitável; projector da imagem-ponto de fuga rumada ao seu próprio ponto de fuga; na boca silenciosa da imagem o cinema antecipa a explicação do mundo - o nosso, íntimo; o dos outros, igualmente íntimo; é pois o corpo que migra mais nu, em silêncio, transportando um colectivo fragmentável de íntimos silêncios, procurando-se uns aos outros, reencontrando-se uns nos outros, no exacto ponto entre a vida e a tela.

[sandra costa]

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19.8.07

Lento

Lá fora, encolhidas na noite, as casas parecem-me desesperadas. Uma vez por outra parecem querer dizer qualquer coisa que eu não ouço, porque estou longe. Se ao menos eu pudesse ouvi-las, a minha dor entenderia a dor destas casas. Olho-as e choro. Não me lembro da última vez que chorei. Há um passo lento nas minhas lágrimas que me faz chorar. Não é assim tão mau chorar. Por momentos os meus olhos lavam o mundo e eu sinto-me uma pessoa terna.
[sandra costa]

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18.8.07

Episódios e o Tempo


Se vos trago Chopin é pois porque regresso nua a contra-dia à nação da minha infância. Prelúdio do que hoje sonho áulico do que outrora fui em menina, pinta-o Bonnard sentando-me íntima e quotidiana na varanda do campo. Do lugar onde me encontro, um certo efeito de elegante bonomia nas trepadeiras e na larga abertura das portas pronuncia na minha visão a busca de um Tempo lento a meia-luz.
Eu estou aqui e sinto-me como fui todas as meninas de Bonnard. Da varanda, neste justo momento do meu verdadeiro e desacompanhado gosto pelas coisas, noto nos pássaros como voam baixo quase colhendo o chão da terra, e há muitas cores nas roupas das crianças que longe correm atrás de bolas. Aqui como também nos jardins da minha infância, dentro da moldura dos buxos, os ciprestes cumprimentam com elegância a harmonia das oliveiras e tudo isto é feito de um momento de paz total, como se a luz convivesse íntima no silente mistério da sombra das árvores.
E se daqui os meus olhos prolongam o jogo das crianças, canta soprano a minha infância e em todos os relógios do mundo os minutos rompem a dispersar como horas. As horas que mais magoadas vêm soletrar-me uma quietude mais magoada fazendo com que eu chore por trás dos olhos e narre em segredo, como Proust, os caracóis outrora cortados do meu cabelo.
Despejando os meus olhos nos olhos delas, pois eu entendo que no olhar das crianças descansam todas, todas as imagens do mundo, eu sinto-me uma nostalgia tão grande semelhante a saudade, porém mais sustenida, tão-somente igual a nostalgia. E abrindo um rumo que em mim autónomo vive apartado da multidão o seu olhar potencia nos meus pés um certo padecimento ligado à partida. A minha infância, sim, a minha infância, personagem latente de um livro sem páginas, estética da suspensão de um movimento em potência, a minha infância. Latente em um carro de bois. Descendente das videiras de Verão. Um chapéu gasto das lavouras de Outono. Uma fonte. A cúpula do céu à distância dos meus encantos de menina. Fiadas de alvenaria de uma casa abandonada. Janelas e portas, escadas e torres, arcos e arcadas, frontões e empenas, uma cobertura todas as coberturas, um lenço bordado, os lentos passeios de carro contra o nevoeiro na subida para Tormes, meus pais, meus pais arquitectos do meu fim, tudo o que de repente me dói e que sinto como um dedo cortado.
Eis que dali vem outro. Se abandonados os caminhos-de-ferro transportam a terna medida do eterno, mas em havendo comboios neles, como os que aqui desde há tanto Tempo passam, muito em mim se desata e agita ferindo-me aos golpes.
Chega forte, tão ao pé de mim, o som dos comboios quando passam junto ao rio que a minha infância os deve ouvir do seu lado. Dentro deles migram pessoas dormidas de olhos tristes, pendulando às janelas, com rumo certo ou sem crianças. Muitas vezes julgo sentir-me capaz de apanhar o próximo, apear-me no esboço dos primeiros Santini de Valbom, partir com outros meninos no curso incerto do Verão mais antigo. Todavia, vai-me durando esta cadeira de jardim quente à conta do sol, apenas por causa do sol está quente esta cadeira de jardim e não houvesse dia e estaria fria. É que à noite há noite e eu dou-me em julgar, sem razão clara, que quando chorarem as primeiras nuvens de Outono esta cadeira será, e caladamente, noitamente, a mais fria de todas. Já sem a vista desolada, ainda que tranquila, para o que fui quando sentada nela, melancolicamente, eu demorava em episódios o Tempo da menina que já não sou.
Um pormenor no avental de minha avó. Os detalhes, minha infância completa rasgada aos detalhes. E sempre, discretamente, a alpendrada poética dos Homens do mundo.
[Texto e Fotografia: sandra costa.]

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8.8.07

Uma noção de certeza na ausência das coisas


Desafiar a vida para um duelo? Não. Lentamente, só importam mesmo os meus livros, os meus discos, a minha morte. A noção do silêncio de uma japoneira, a berma íntima das coisas do meu corpo. A minha avó costumava sentar-se ali, na conversadeira da janela. Eu bem a via quando ia à eira confirmar a vagueza do mundo. Só a minha avó me parecia certa, tão certa como agora vem a ser a sua ausência. A janela fechada, as conversadeiras caladas. Um dia saí de casa e a casa começou a envelhecer. Terei sido eu a envelhecê-la depressa? Estendo a mão e caem-me pétalas de camélia que eu levo para dentro da minha cabeça. Rodeiam-me estas imagens que se afastam quando as toco dentro da minha cabeça. Fico quieta. Quero estar quieta. Para que fiquem. Há uma noção de certeza na ausência desperta das coisas que eu fui. Procuro explicá-la todos os dias, assumindo para esta certeza um temperamento distante como se nunca tivesse vivido o que hoje me sobro. Sou essas coisas em abandono completo. Nua, diante delas, sou a coisa estranha que elas não reconhecem. Sou também uma coisa. Quero estar quieta. Sentar-me aqui, ser olhada por tudo isto. Quero ser explicada por este cheiro que resta de quem plenamente o deixou. Quero ser explicada pela minha avó. Quero que ela me olhe, que note como envelheço mais do que ela envelheceu. Quero ser velha, pois não posso ser o que nunca fui. Sempre fui velha. Sempre fui mais velha do que a minha avó. Comovia-me, por exemplo, à passagem das mulheres de preto. Um dia chorei sem dizer por que chorava. Só porque uma mulher de preto olhou para mim e me disse adeus. Há quem chore por menos. Eu choro porque não posso mentir o meu amor à melancolia das coisas que dizem adeus e dão lugar ao verdadeiro recado das ruínas. E isto, creiam, representa a força cumprida da minha vida.
[texto e fotografia: sandra costa. Japoneira sem camélias. Pormenor.]

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25.7.07

Ideias visíveis

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
Steve McCurry enfeita o gesto todo doloroso com a cor mais alegre, naturalmente difusa, possibilitando-nos escolhas. O sofrimento, enfim, e não falta quem o ateste, é uma cor só derramada do conjunto de todas as cores, diluindo o mundo para o transformar, em suma, numa única cidade. A cidade das ideias. Das ideias visíveis.
[Imagem: Steve McCurry. Dust Storm. Rajasthan, India, 1983.]

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20.7.07

Noli me tangere


[Domenico Maria Canuti. (atribuição) Séc.XVII]

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9.7.07

Que mulheres ainda estas videiras


E se hoje eu visito as videiras muito levantadas do chão, que nem as mulheres que eu contemplava há tanto tempo sobre o mar da lavoura, jovens humedecidas pelo sol, que mulheres ainda estas videiras. Ah, a minha vida não é minha e, no entanto, foi minha. Possuía-me a vida então tomada pelo corpo dessas mulheres que cheiravam a ramada e alfádega e me assopravam nos olhos como só alivia a sombra de videiras quando poderosas rebentam. Que videiras essas mulheres, essas mulheres molhadas ao sol. Vede, vede como me importa esse Verão verde e tenro, transpirando de alto como jorrando das mulheres animadas de Fragonard, esse Verão hirto que eu desfolhava, um cume de prazer.
[texto e fotografia: sandra costa]

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Episódios tranquilos de uma noite de Verão

Ao alcance da tua voz eu soltei a minha voz
E esta noite dou por mim calada todas as noites.
Sento-me neste banco
e o meu pé esquerdo deita-se em segredo sobre o meu pé direito.
Aliso devagar as pregas do meu silêncio
como se o fio dos meus dedos desenhasse a tranquilidade,
a tranquilidade das borboletas.

Os sóis do mundo brilham das mãos de meu pai alfaiate
E acode-me esta serenidade do giz e da régua
e dos tecidos e das linhas sobre a grande mesa de meu pai alfaiate,
esta serenidade que pousa idosamente sobre o macio chão da minha boca calada.

Sou a escalada do meu silêncio na direcção da casa da padeira
Um funeral sem gente atravessado pelos relentos de Verão
O quintal de meus avós ali deixado, as videiras, um carrinho de mão
Um batalhão de meninos que trazem segura por suspensórios a infância das flores

Se choro é por estar serena que me dou em chorar
Não trago nos olhos cansaço nem nada, apenas tudo elevadamente
E talvez por isto talvez enfim me canse
Tranquilamente.

[sandra costa]

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29.6.07

Palavras

Há palavras que se cortam a si mesmas e deixam de ser palavras; há palavras que se acariciam a si mesmas e deixam de ser palavras. Outras palavras há que se incendeiam a si mesmas e ardem, deixam de ser palavras. Cimatarra não é uma palavra, é sangue. Veludínea não é uma palavra, é gesto. O fogo também não. O fogo vem sobre o fogo e ardem os dois.
[sandra costa]

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18.6.07

Petit Marcel


[Fotografia: Paul Nadar. No dia 24 de Março de 1887]

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Decido o gozo voluntário das tílias

E principalmente o aroma das tílias. Choveu durante toda a manhã e eu sentia da janela do meu aposento uma força maior que me chegava das ardósias. Lá fora algo parecia querer brilhar muito, como se fosse coisa antiga para sempre nova. Algo que de fora se esforçava por brilhar tanto que eu, nas demoras de um chá que levava à garganta, me fui devolvendo ao descanso macio das ardósias e, principalmente, ao aroma feminino das tílias então trespassadas por súbitas bátegas. Naquilo fiquei durante o silêncio de um céu mais dócil, um céu altíssimo dando-me chuva também miudinha cujo significado, conforme esta decidia deslizar nas ardósias das casas, está no pleno dormir de uma criança. Em momentos próximos a este eu costumava sentir paz mor no alpendre da minha infância, por baixo das glicínias que esta semana voltaram a florir por via da chuva que, em junho, é educada e generosa. Tinha vezes, lembro bastante bem os bocados no alpendre que chego a sofrer os latejos afeitos a estas evocações, em que minha avó materna dizia de dentro que era necessário fossem amiúde chamando por meu nome, que eu no contrário ali me ia ficando por muito tempo no tempo parado, como uma criança deitada na sombra berceira, a inalar involuntariamente o gozo das tílias. Naquele tempo eu tinha um nome da cor de flor de jacarandá, um nome que no chão de terra tombava indistintamente e que tinha vezes as crianças o colhiam do chão para oferecer a suas mães. Naquele tempo eu tinha um nome de uma só cor e que soía descansar unicamente na voz de minha avó ou na transição entre a mão de uma criança e o colo de sua mãe. Não há, hoje, um só momento no qual não prefira chamar-me ardósia, tília, ou mesmo a silva agreste na subida do monte. Um nome que próximo seja da relação morna e amorosa da chuva no corpo da tília. Um nome que possa ser declamado em descanso e que, na ausência concreta do alpendre que dá agora lugar a uma janela sem voz, não permita a mínima possibilidade de, sequer, um meio latejo no meu peito.
Hoje escrevo tudo isto e tudo o que sinto sobre tudo não chega a ser completamente póstumo, pois que decide o meu pensamento intenso permitir que todas as pessoas e todas as coisas principiem a nascer verdadeira e voluntariamente sempre que à superfície das lajes do tempo eu aceito a certeza da sua morte verdadeira e involuntária. Principalmente a do aroma, do aroma do gozo inflamado das tílias.
[sandra costa]

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12.6.07

Olho(s) das janelas capítulos de um livro

O nosso arquitecto, o senhor Lars Bo, que subidas vezes ainda julgo ver no alpendre a despedir-se da mãezinha, traçou por largo tempo o que são, na cottage do marquês de Tormes, meu defunto avô, as janelas através das quais eu hoje não vejo ninguém. Nem os vestidos da mãezinha habitualmente encimados pelo estilo regência dos seus brincos, nem o avô no filmar das tardes, sentado muito recto por baixo das amendoeiras, cria que a aproveitar a brisa do sul folheando manuscritos que ritualmente lhe dava a ler o amigo de família, o senhor De Queirós.
Seguindo os avatares do Tempo, o avô e a mãezinha foram a enterrar tal como eu um dia irei, depois de vós ou talvez durante; antes, quem sabe, talvez antes.

Estou aqui a olhar para elas. Cada uma das janelas da villa foi isolada e deliberadamente voltada para uma existência exterior irregular, independente e sozinha. Durante muito Tempo eu julguei que habitava dentro de um livro, destacando através de cada uma das janelas capítulos separados dentro dos quais passeavam damas e cavalheiros e as crianças saudáveis que fingiam tombar no chão como a ponta das trepadeiras.
Mais tarde, é claro, a morte do avô revelou-me a silhueta obscura das janelas, o jeito perverso como na minha vida a janela de guilhotina do quarto do marquês meu avô introduziu a abertura para o fim certo de todas as coisas. Foi dessa janela que o meu olhar, em afilada perspectiva, se despediu do meu avô. Eduarda Maria, filha de D. Gomes de Pombeiro, contava a minha idade e costumava acompanhar o pai às quintas, dia durante o qual o avô recebia na villa. Recordo bem, eu e ela na dependência luzente do avô, assistimos ambos ao afastamento da urna para lá do envidraçado da janela de guilhotina. Depois sentámos na cama e o linho pareceu-nos, aos dois, muito crivado pela doença. Naquele dia foi encerrada para sempre a primeira janela da casa, episódio que hoje me serve de metáfora ao rebentar das minhas tantas visões desapontadas com o mundo.

Já que falo de Eduarda Maria, nome sugerido pelo senhor De Queirós por alturas em que este andava fustigando à pena dezenas de fólios para um novo romance, digo-vos que namorei silenciosamente Eduarda Maria, jovem pianista à conta da qual eu acorria inúmeras vezes à janela de batentes do meu tímido aposento. Debruçado na soleira da janela eu aturava, ali, temporais de horas à espera de ver sair Eduarda e minha mãe da estufa ornamental. Lido das janelas das casas, este é o capítulo tão velho como o da morte, o do meu amor encantado e estremecido por Eduarda Maria.
Como lembro. Na estufa, Eduarda delongava-se com a mãezinha e a criada do jardim, Maria Augusta. Prendiam-nas as azáleas e o perfume das cravinas. A celeuma provocada pela epañol acusava o fim do cerimonial das flores e a hora triunfal do chá. Da janela eu reparava como Eduarda Maria aproximava delicadamente o corpo na direcção da casa; estrutura complexa, os seus passos, anunciavam a chegada de todas as estações do ano e injectavam respeito à paisagem pitoresca da villa. O avô, o senhor de Pombeiro e eu descíamos ao pátio eirado e ali nos demorávamos junto das damas, soprávamos o chá informalmente e também informalmente os meus olhos se fantasiavam da boca da menina Eduarda, aquela boca repleta de beijos por mim inventados. Celebrávamos, por fim, a hora divina das quintas-feiras. Os criados abriam as janelas salientes projectadas na fachada da casa e dos grandes vãos entrava uma luz vasta e decorativa. A menina tocava para nós. Eu lembro ingenuamente aquela hora, como sobre as teclas do piano primeiro a mão esquerda da menina Eduarda seduzia a direita e como eu me interrogava acerca do grande mistério da largada daquele par de mãos. Na hora da partida, eu subia novamente ao lugar da minha janela e despedia-me ensimesmado. Para onde levaria a pianista aquelas duas mãos que não eram dela?
Eduarda Maria aconteceu, de todos os modos, como tocata fugaz na minha vida. Deixou a fantasia espalhada na paisagem da villa e partiu com o pai para habitar um petit chalet suíço. Passei a namorá-la a frio da janela do meu quarto, de modo que a minha janela, como metáfora de uma segunda visão desapontada, passou a criar cenários escuros de uma esperança nua e sem contornos. Daí em diante, todas as janelas da casa, bem como as portadas delas e os cortinados de veludo seda, foram sendo fechados cadenciadamente, tal como capítulos de um livro que cegaram e para sempre se calaram.

Por vezes, do olhar da janela palladiana do antigo quarto da mãezinha, pressinto que ainda se ouve a harmónica do amola-tesouras anunciar as primeiras chuvas. Lembro que, não demorando, daquela janela se abriam as águas do céu, como um lençol lavado, pousando sobre o vasto verde das árvores. As brumas declinavam ao ritmo natural dos meus olhos adivinhando-se numa outra janela, a da sala novo-manuelina onde minha mãe lia o senhor Tolstoi e chorava o desencanto, um manto cinza de nuvens descendo sobre a terra.
No conforto de dentro apetecia apear o grande lustro de vidro veneziano, tocá-lo com melancolia, detalhadamente, acompanhar em silêncio o musical das páginas folheadas por minha mãe.

Eu estou aqui a olhar para elas. A visão das janelas, toda ela agora cerrada, deixou de olhar por mim o regresso do senhor Lars Bo a casa, minha mãe diligente e meu avô debaixo da coloração doce das amendoeiras. Os meus olhos cansados esgotam-se no enfermo deslize das noites, quase não lembro o som dos dedos luminosos de Eduarda. Por onde andarão aquelas duas mãos que não são dela? Qual a janela que me revelasse este segredo e que o senhor Lars Bo não esboçou?

[Texto e fotografia: sandra costa]

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10.6.07

A postura das horas paradas

Deste lado da noite eu ainda estou para nascer, mãe. Sou pura nesta noite. As feridas estão mais além, para lá da chama do meu silêncio. Pousou uma calma de orvalho sobre a minha respiração que eu não sei. Uma síncope que me vai dentro congela-me a vida e eu pareço agora sorrir longe da pravidade do mundo. Será que sorrio, mãe, ou serei apenas a flor donairosa lavrada num campanário de pedra? Serei, mãe, a postura misteriosa das horas paradas? E se tu já nasceste, mãe, o que faço eu aqui, tão antiga, a aguentar o mundo contra o peito como seja o mundo, triste e prosternado, a palma de mártir?
(Para a minha mãe, que nasce hoje e quase sempre depois de mim.)
[sandra costa]

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7.6.07

Consentimento

Consinto que me tragas o mundo encetado sempre que os teus olhos encerras e no sonho tens pé. Consinto a conspicuidade dos teus dois olhos fechados como duas gazelas rentes ao nascer do sol. Consinto que venhas sem pudor e sem vergonha e te acostes à minha dor. Desde que venhas sem vergonha e sem pudor. Desde que venhas como quem prestes a aparecer.
[sandra costa]

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4.6.07

O sofrimento como possibilidade bela

Na esteira do fílmico o sofrimento em câmara lenta parece o único susceptível de ser sempre possivelmente belo - maior das provas é a obra completa de Luchino Visconti, cuja ferida mais empenhada – espoletada por uma derradeira e extrema perseguição do Belo - se permite viver corajosamente, abrindo-se por completo para escolher entregar-se deliberadamente à morte no lugar de Veneza, ou direi mais bem dito, no lugar de Tadzio, iminente e tão exequível personificação do Belo. Talvez por esta razão, deveras paradoxal, vem tantas vezes o cinema, como um Deus de carne humana, reconciliar-me com o meu sofrimento quotidiano, permitir-me achá-lo momentaneamente disposto a ser-me belo e, no âmbito da procura (as mais das vezes desesperada) dos lugares impossíveis, recebê-lo pacientemente para lá dos limites, imputados ou não, do meu próprio corpo.

[sandra costa]

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3.6.07

Mãe de minha mãe

Os olhos de minha avó, nobilíssimos, eram o horizonte. Olhos lentos, o silêncio suspenso sobre o mundo lindo da minha infância. Nunca em toda a minha vida poderei crer na aparição de um olhar igual. Hoje minha mãe quando me olha abranda-me a vida, só por momentos a leva ao colo no fio da luz. A minha solidão comove-se tanto que permito que chore. Minha mãe sem mãe é uma dor muito bela, como se fosse o princípio da dor, como se a dor de minha mãe fosse unicamente minha.
[sandra costa]

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Noli me tangere


[Francis Luis Mora. 1874-1940]

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1.6.07

Pai

O meu pai chama-se Joaquim e a ele devo o meu corpo feito de terra. Às vezes sentamos os dois no quintal a apreciar o cheiro da chuva e isto em silêncio como dois calados que se amam muito. A chuva a cair sobre a figueira leva aos olhos do meu pai a minha vida completa. Há nisto um universo de risinhos de criança, a medida justa do que sempre fomos, eu e meu pai, um universo de risinhos de criança.
[sandra costa]

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Este blogue


Em movimento Mahler.

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19.5.07

A condessa [dedicado]

A condessa Yablonskaya é uma mulher, pode dizer-se, gorda. Seus olhos, igualmente fartos, certo dia encantaram com viço o comandante francês Louis Antoine. Arribado de muito longe, o comandante foi dar, no acaso das lidas da luxúria, à maison da condessa Yablonskaya, à cama da condessa Yablonskaya. Conheceram-se numa das habitualidades de soirée em casa da condessa. A senhora Yablonskaya, por muitos e preclaros motivos, é a predilecta de todos; descansa pouco o que lhe vale um par de olheiras tão belas como duas luminárias e, leitor, não sabendo se me farei entender, assevero, no entanto, que esta dispõe nas maneiras um certo avanço de estar no mundo. Quando se alegra parece um jardim em flor e todas as confirmações do comandante a fazem desabrochar do rosto ramos de camélias brancas. Meu leitor, não há cor tão honesta quanto a do branco camélia, o branco magnólia, o branco coco. Assim, honestos e nevosos, são os olhos de Yablonskaya, muito surtidos do seu rosto redondo e apontado, absorvidos com chama como dois troncos numa lareira.
O comandante, por sua vez, entre a multidão faz-se notar imediatamente pela voz, que esta no pino do inverno inflama o peito da condessa e demais mulheres - cocotas disfarçadas à la noblesse e vice-versa - uma voz de papel liso e brilhante que amiúde diz com simplicidade:
- Senhora, encantado.
Aos pedidos da condessa, ele anui com uma prontidão exacta como seja rogo divino. Casal, perdoem a infelicidade do termo que outro mais impreciso não me ocorre, feliz.
Conto-vos como foi que Louis Antoine se achou então na confirmação da suspeita de amor. Certa vez, ao dirigir-se a ela num desatino infantil, Louis Antoine tropeçou nas palavras frias da condessa:
- Não posso deixar de notar, senhor comandante, que um certo interesse seu demonstrado por minha pessoa me leva a desprezar-me ainda mais. Dou-lhe, todavia, a ansa de se retirar para sempre ou, no contrário, conhecerá, por fim, de que é feita a própria volúpia.
Logo as palavras frias desataram a arder nos olhos do comandante.
A condessa Yablonskaya é uma mulher, pode dizer-se, gorda como Deus; abanca-se na longa espreguiçadeira e fuma do cachimbo com enorme disposição para a vida. Conheceu um comandante destro que lhe oferece o aroma das buganvílias por carta quando vai o comandante de estar ausente. Ela gosta. Ela gosta muito, descuida-se da sua habitual compostura e verte duas lágrimas junto ao canteiro dos amores-perfeitos. Como é gorda e sensível a condessa Yablonskaya. Como se abre na cama e se dá talentosa aos acometimentos da carne crua do comandante. Eriçados e embrulhados contra a parede, seus corpos confundem-se com a ramagem colorida das buganvílias quando dão em trepar pela fachada axial da casa. O que fazem na cama atiça a inveja dos criados que palram às damas as poucas-vergonhas dos senhores.
- Mas tal e qual, baronesa De Ville. É como lhe conto. Vai dia e noite o regabofe àqueles aposentos; ninguém diz pela frente o que seja a senhora condessa por trás, senhora baronesa.
- Não me diga, criada?!
- É como lhe digo. Agora queira dar licença que tenho de ir abrir o cancelo do jardim ao hortelão.
Quando elevados sarau dentro assuntos em torno do estado do mundo e do Homem, são o casal, sem que sejam exactamente um casal, repleto de aporias e delícias, a condessa e o comandante.
- E um bando de pataratas é o que somos. – Na discussão ateada por ela mesma, conclui sempre do mesmo modo, a condessa.

E todos, linguareiros de corte e áulicos de melhor entretela, amam perplexos o encaracolado par. E amam sobretudo a condessa, tão gorda e viçosa, fonte de prazer, proprietária do evidente superlativo fálico do senhor comandante. E como ela inspira o fluxo das senhoras e desencolhe o desejo resfolgante dos cavalheiros.

Dedico esta história sem pés nem cabeça às mamzelles que tanto idolatram, com cortesias e provocações várias, os modos sérios desta vossa servilheta. Espero que gosteis desta condessa, que vo-la preparei em lume moderado enquanto aos pinotes meu olho direito secretamente se deliciava na cama com Puchkine.
Recebo habitualmente às quintas, queiram, no entanto, fazer-se anunciar quando bem entenderem.
Adeus então, da vossa.
sandra costa
[Imagem: James Tissot. Soirée d'été. 1882]

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7.5.07

Fecho os olhos, aprendo a guardar a chuva

Com os meus dois olhos assim dispostos há-de surgir uma hora na qual aprenderei a guardar a chuva, a fechá-la à chave. Que sombra tão apagada dentro da cidade. Pergunto-me se a vossa noite é igual a esta; é que a noite, aqui a noite sempre tão abundante, é uma folha de palavras que tantas vezes me fere e a custo meus olhos respiram.
Esta casa. Esta casa entregue a um resto de pó e às nódoas da toalha da cozinha. Eu olho a mesa da cozinha e ela tão calada, vai para muito tempo que as nódoas da toalha choram baixo, olho a mesa cheia de chuva a mesa tão calada. Esta casa a naufragar aos poucos. Então fecho os olhos e eu muito longe deste lugar errado, muito longe, sou quase a primeira versão do meu corpo nascido para o mundo. Já fui uma criança e de repente sou talvez. Fecho os olhos e a minha memória abre um prado repleto de imagens que desfilam na minha direcção como bailarinas. A ponto de chorar, sinto de repente que volto a ser quase o que estritamente sou. Que ternura forte, como é sábio fechar os olhos, abrir o mundo sem barulho.
De olhos abertos não passo de um brinquedo posto e tolhido em cima da televisão, ao lado dos meus avós vivos; os meus avós que vistos do vosso lado até poderão parecer dentro da moldura, mas não; que na pura verdade do avesso dos meus olhos estão sentados na eira, os dois à conversa com os criados e um dos criados, por acaso, pica-se na roseira e leva o dedo à boca; sobre os dois paira um ar de maio que vai à passagem das mulheres de preto para enfim regressar o ar de maio aos apelos simples da eira, como, por exemplo, a invocação gloriosa das chinelas de verniz da senhora minha avó ou da mão de meu avô tímida abrigando a mão dela.
Fecho os olhos para cavar a minha vida, exumar um lado mais próximo de mim, um lado mais perto do que sou. Há-de rebentar deste gesto sem ruído uma vida mais próxima do que sou e que virá como uma voz derramando sobre mim uma existência feita de verdade. A verdade da fantasia. A fantasia das coisas. Essas coisas que não cessam de nascer por dentro delas mesmas e que sendo, afinal, tão infinitamente íntimas não morrerão nunca essas coisas todas, andam por aí à solta a nascer um ror de vezes dentro delas mesmas. Ah, que bonito isto.
Fecho os olhos e um lugar mais perto do que sou e o que sou compreendendo muitas vidas, eu a chamar-me tantos nomes. Um lugar onde o meu corpo é começado, como manando da terra e do vento posto. Onde me chamo melro e acácia, a minha solidão enfim escancarada num campo aberto, a cheirar a parreira, ao sol, à terra depois de lavrada. Um lugar onde do alto caia o Verão todo sobre mim eu restolho, e tudo o que hoje chove em toda a parte desta casa mais não chore.
Fecho os olhos e um bando de pássaros, um bando de pássaros traz-me uma braçada de pormenores macios que enxotam a chuva para longe. Minudências como sejam o cansaço tranquilo das águas de um ribeiro, uma galinha a bicar ali e acolá, o gáudio das desfolhadas, um tanque grande, a pegada de um cão abandonado.
Quero esse lugar onde os meninos se aproximam de mim e tratam bem os meus olhos velhos.
Eu que ali seja tão feita de carne, tão cheia de carne e, portanto, uma fonte de nostalgia a jorrar sobre o horizonte; eu, o voo da melancolia sobre os arrozais do Mondego, eu a dizer ao mundo inteiro que o meu nome é relento. E o mundo, que em mim crente, desata a acreditar.
[sandra costa]

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5.5.07

Que parta o cheiro antigo das glicínias

É o quinto dia de maio quando as noites já sopram o cheiro antigo das glicínias para dentro do útero das ruas. Eu ergo o meu nariz nos quinteiros e logo a parteira Maria Inácia, mulher solteira, leva a criança nos braços dos braços de Juliana Jorge, a mãe, moça criada, para os braços do Sr. bispo, o pai.
Vêm estas personagens escrever-se na minha cabeça e eu condenada a criar uma história sem paradeiros.
Sem paradeiros para nada ficar a saber de Maria Inácia, de Juliana Jorge, tão-pouco do bispo, senão os seus nomes, já se apresentaram, nada mais.
Estas e outras, as minhas personagens costumam abeirar-se calmas, como eram as fiadas do linho nas mãos de minha avó, escrevem-me baixo, ao ouvido, muito devagar com beijos que abrem os meus, com uma sombra que protege a minha, com corpos secretos criadores do meu. Elas trazem todo o universo para dentro de mim e todo o universo se ajusta a uma ruína, a um fragmento de ruína, enfim, ao meu corpo. E eu alargo-me por muito tempo como um ser que ri de muitas maneiras e chora de outras tantas. As minhas personagens têm por vezes pena de mim e por isso me escolhem. Porque eu sou em tudo a pobreza por trás das casas, por baixo das camas de hospitais, nas solas gastas da multidão, nos ossos miseráveis de um doente, na fome aguda de um cão, nas mãos abatidas de uma lavadeira, na solidão oprimida de uma casada. A pobreza, a inarrável pobreza das novenas da aldeia quando estas foram a última visão de um poeta.
As minhas personagens, à medida que chegam, inclinam-se, escrevem-me tudo sozinhas, mas depois partem, sem aviso partem muito depressa, juntas, e eu fico para aqui só, com a saudade mais para dentro como o cheiro das glicínias nos meus dedos apertados. E ficam inteiramente confusos, os meus dedos, por causa das glicínias, estreitos, os meus dedos.
Às vezes gosto de julgar que vou sabendo da criança que vai no colo da parteira, a quem Maria Inácia segreda baixinho meu pequeno Bastião. Eu gosto de procurar esta criança sobretudo quando o meu pensamento se enche de carinhos e na minha cabeça cheira ao prolongamento das que foram minhas tardes de berço. Ali eu cansava-me ternamente e minha mãe trazia-me com força dentro de um Tempo que descansava sobre as giestas de maio.
Mas hoje eu quero, destes nomes, destes nomes trazidos pelas glicínias, deixá-los ir antes que partam sem mim e me pesem sobre a coluna, como sempre, um sabor infinitamente só. Eu não quero enternecer-me quando vastamente Maria Inácia mergulhar a criança no colo do pai. Eu não quero a nostalgia quando um sorriso de pai cobrir a boca de Bastião de um mundo todo à margem. Antes que me cheire a suor e sangue de parto, eu não quero saber mais nada de Maria Inácia, da suave Juliana crepitando soluços, do verdadeiro e intacto orgulho do bispo. E, sobretudo, daquela feliz criança, tão longe de uma dor que a mim me morde profundamente.
Hoje condeno a minha solidão. Vai à autópsia sozinha e depois colherá flores de cemitério, que essas, decerto, não cheiram a glicínias. Todos os mais que insistem descer sobre mim, colocando-me no peito esta boca de dor severa e escura, todos esses que partam pois quero que sigam, sem paradeiro.

[sandra costa]

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27.4.07

Dois homens bonitos


[Anton Tchekhov. Lev Tolstoi.]

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12.4.07

O meu silêncio está a ganhar metástases

Há algumas coisas que me impedem de escrever, ou, mais bem dito, talvez – sem exagero - tudo me impeça de escrever. Se eu que sinto que tudo é mais forte do que eu, que tudo se aproxima de mim para me abalar, que tudo o que no mundo existe diz sempre mais do que alguma vez dos meus dedos e da minha boca e dos meus olhos direi, então eu não posso estar a escrever. Eu nunca escrevi. Quando muito, estarei a sentir um pouco de tudo isso que há por aí; também a sentir um pouco de quase; quase a sentir tudo, mas ainda pouco, quase lá, mas ainda longe. O meu silêncio está a ganhar metástases. Se hoje nunca escrevi, o que direi de amanhã se é na minha infância sem palavras que eu morrerei? O meu silêncio está a ganhar metástases. Posso dizer que sim, que há algumas coisas que me impedem de sentir. A coisa da doença impede-me de sentir. É como uma lobotomia que me corta o cérebro todo aos pedaços e depois vai o meu cérebro todo à boca de cães esfaimados. A doença. A doença inventaram-na quando um dia entrei em casa dos meus avós e afinal os meus avós foram sempre retratos. Um tiro. Um tiro na cabeça de quem me enganou durante tanto tempo. Eu cuidei que haveria de cheirar os cabelos da minha avó para sempre e afinal. Afinal são só portas fechadas, janelas fechadas, as videiras por enxertar, os criados em parte incerta, poças de água que em abril parecem mais tristes, de repente a assustadora alegria das azáleas e o fustão de melros no ar trespassando o bálsamo licoroso das glicínias. Tudo começa a fechar a envelhecer depressa demais, menos os melros, menos as glicínias, menos todas as coisas que não falam a linguagem difícil do Tempo. Não falam tampouco. Há uma noção completa de felicidade nas azáleas. Mesmo nos charcos tristes de abril reluz um conceito de eternidade que eu nunca saberei explicar. Até a minha infância envelhece quando me dou fé de a tratar por dona infância, mas ainda assim não fala, a minha infância. Tam-só com tudo se comove quase muito e é nela, sem palavras, ela feita do mistério inacabado das flores e dos pássaros, que eu um dia, certamente, morrerei.
[sandra costa]

Ao António Lobo Antunes, que ficará bom depressa, porque temos um café pendente. E Lisboa – tal como ele me garantiu – não é assim tão longe. Quero, para sempre, nos meus olhos uma mão cheia de ti.

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9.4.07

Noli me tangere


[Leonardo Da Vinci. Estudos de Embriões. 1510-1513]

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2.4.07

Do lado silencioso do mundo

Onde cai uma sombra sento-me à sua banda e disponho-me, num gesto momentâneo que também é de leitura, a cheirar os meus livros antigos. Deles raiam histórias de muitas pessoas e de certas coisas de espírito de que gosto e comemoro sem festa: a melancolia das tardes de domingo; roupa miúda estendida nas cordas; a cantiga velha dos cancelos de quintal; o relento das manhãs do campo; um canal de água que, discreto, atravessa deitado a evidente agitação dos meus olhos; um guarda-chuva preto pendendo do braço de uma viúva; o latir distante, todavia familiar, dos cães; panelas de ferro assentes nos braseiros; o canto desacertado dos vários campanários da aldeia; naturezas mortas à porta de uma loja; as misturas de luz no adro dos cruzeiros; o espaço despido e refinado das eiras; novamente o relógio morno e melancólico das tardes de domingo e, daí em diante, dos meus livros outras coisas - certas realidades de espírito - vêm acudir nas horas furiosas da minha alma; coisas das quais emanam aromas e tons cuja proveniência desconheço; do mesmo modo venho em vida, por vontade própria, a ignorar o lugar onde talvez venham a morrer, todas elas, involuntariamente.
Basta que os abra, basta um clarão do seu aroma para logo minhas infecções nervosas recuarem na inclinação do sossego de uma sepultura; como fico calma. Os meus livros antigos guardam por baixo das suas encadernações pessoas dentro que me cheiram bem, que nada lêem, vivem mais nos ares do silêncio, falam pouco. Algumas cheiram a café, muitas me cheiram a terra molhada das lavras de abril, outras ainda à fragilidade, como os meus dois seios, do orvalho da alvorada sobre as gardénias. De repente conheço com saudade, como as tendo outrora abraçado e delas me tivesse fatalmente apartado, as pessoas que vivem e morrem do lado de trás do mundo e que no meu colo, grandes e no vagar da nostalgia, duram indefinidamente no instante destes livros. Sangradores e tanoeiros, boticários e alfaiates, lagareiros e ferradores, sombreireiros e pedreiros, carpinteiros e botoeiros, o coxo e o cego, a meretriz, a solteira, a tecedeira, a cozinheira, o pescador, os moradores das ruas sem mapa, as criadas que dormem no quarto das criadas. Ah, e a lavadeira.
Sei bem que vós preferiríeis histórias alegres escritas sobre fundo branco, mas se vos digo que tenho bastante vontade de falar às criadas e às tecedeiras que encontro e com quem me misturo dentro dos meus livros antigos, se vo-lo digo não vos minto e nem por isso me sinto triste; deveis acreditar que não me sinto em tudo isto assim tão triste.
Pouso em mim os livros e vou-me nos fólios. Acompanho a chegada de um jornaleiro a casa, o modo como vai cear à mesa com a mulher e os filhos em redor, todos e muitos na cercania do pão e das cerâmicas; e depois se vai à cama o jornaleiro, amparado carnamente nas duas pernas e açoitado pela aflição do dia seguinte. Olho durante muito tempo para dentro de uma mulher que no mercado se avia de legumes e outras novidades. Esta mulher que leva a filha ao seu lado - entrançadas braço no braço – não tem mãe. Eu quero ser a sua mãe, pois não pode um animal ser mais completo quando leva na vida a fortuna de haver uma mãe ainda viva. Por isso, quero; quero muito ser a mãe daquela mãe de modo que, não podendo sê-lo, prefiro chorar, tudo me escapa.
O mundo começa nestes livros; nas criadas que levam os aventais novos à mesa e trazem a alma rota quando na cama, tão cansadas, de si mesmas se esquecem. Nestes livros que desatam a parir verdadeiras alegrias nos meus olhos inquietos quando me sei na consciência de que sinto o que amargam o coxo e o cego, o hortelão e o ferrador, a cozinheira e a lavadeira, os moradores das ruas sem mapa, esta gente de beco em vida, de campa baixa em morte. Estes livros desatam a parir alegrias nos meus olhos abandonados só porque sinto que sei de consciência sentida como brilha a tristeza de um mundo que perfeito se vem durando no seu lado de trás; embrulhado nos meus livros antigos; do lado de trás onde se juntam os nós de um botão que os dedos finos da botoeira coseram sem apuro, imperfeitos. A alegria disto é nisto não haver ideal. É nisto haver um cheiro, um cheiro apenas, que incerto me chega anónimo e forte, erguendo-se muito acima do que sei ser capaz de vos dizer. A alegria disto é sentir tudo e depois parir de dentro os ares do campo, espirrar dos olhos a alegria de saber gostar de ser triste; é sentir; sentir muito antes de chegar a saber que sinto e o quanto sinto.
Quando por vezes caio na desgraça do pensamento excessivo das coisas desafectas aos meus livros e cuido de nesse estado vir a esgotar a minha infecção nervosa e de nela me asfixiar até à morte, abro para sossego do meu cérebro as suas folhas velhas e perfumadas e nelas me acho por trás do mundo - apenas isso - acompanhada de coisas outras, animais e pessoas que eu prescindo de pensar, porque nunca fazem barulho. São coisas que visivelmente se duram, que se duram numa existência inacabada, numa abundância que somente a elas pertence, sita folha a folha, no abismo esplêndido, cintilante e ardente dos meus livros antigos, no lado de trás do mundo.
[sandra costa]
(Imagem: Paul-Camille Guigou. Lavadeira. 1860)

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27.3.07

Noli me tangere


[Carlo Dolci. 1616 - c.1686]

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22.3.07

Os teus dois olhos, meus guizinhos de brincar

Posso jurar que hoje passo por ti no carreiro. Os teus cabelos cheiram à folha de louro, o meu nariz devastado, quando olho para o céu cheira ao loureiro, sinto vertigens nos olhos, o meu nariz destroçado. Ao fundo do caminho uma mulher sozinha lava roupa preta num tanque de granito; alguém chama por Mateus, olho e é um gato que pula o muro de um casebre abandonado; deixei a poesia toda debaixo da cama varrida por amontoo e venho ao campo procurar mulheres grávidas. Olharei para elas quando as encontrar e saberei voltar para dentro de um ventre qualquer e agachar-me lá como um gato; morrerei agachada na barriga de uma mulher que me seja estranha para sempre e o mais que me agita agora quero que de repente me escape. Que se vá o aroma do louro na fiada dos teus cabelos pretos; vai para longe leva os teus lábios finos, açucenas ao relento; não quero os teus dois olhos, meus guizinhos de infância. Agora deixa-me, deixa-me que eu procuro mulheres grávidas para dentro delas me agachar, não quero, já disse que não quero os teus dois olhos meus guizinhos de infância.
[sandra costa]

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18.3.07

Noli me tangere


[Mariano Fortuny. Desnudo en la playa de Portici. 1874.]

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As camélias morrem enquanto a luz vai toda às crianças

No jardim. Derramadas das japoneiras purpurinas, ao acaso caídas na terra morna, seduzem os meus olhos e todos os meus sentidos se desviam dos seus lugares e vão parar às camélias. Estremeço. Ali tombadas as pétalas de camélia são as letras de a a z e declamam completas e amenas o que jamais da minha boca turbínea e despedaçada serei capaz de dizer. Umas quantas, tantas, ainda vão na queda anónima sem que em mim reparem. Ao atingirem as pregas da terra ali ficam na delicadeza adormecida do menino despido na praia de Portici. Em tudo se torna erótico que eu as queira beijar uma a uma e quando delas me achego ouço de súpeto a voz da senhora minha avó e retraio-me, volto atrás, esbarro contra a luz que vem do sol e que toda brinca com as crianças. A luz vai toda às crianças. Quando naquele tempo perguntava à minha avó se ela, tal como eu, também ouvia a toada da luz quando do sol do céu vinha brincar na terra, minha avó acoitava as minhas palavras com os olhos e nada dizia. Pelo menos hoje julgo sentir que as acoitava, embora naquela altura julgasse crer que antes as proibia. Porém, bem sei que hoje sinto mais do que creio, ainda que por sentir muito me torne um nada mais crente. Como lembro. Eu gostava de sentar à soleira com a minha avó e de na sua companhia receber o tempo da tarde por muito tempo demorando-se até à noite. Minha avó muito nova e eu talvez um pouco antiga, de outro modo como se explicaria que eu então menina sofresse tanto e repousadamente na sua altíssima beleza? Tinha uma hora em que minha avó adormecia velada pela aragem doce vinda de muito longe no alcance do seu rosto brando, das suas mãos afiladas, das abas do sombreiro bordado; talvez uma aragem vinda de dentro de mim. Ou talvez desde sempre que dentro de mim é a aragem de um lugar tão distante, que nem os lugares impossíveis de Caspar Friedrich repletos de viajantes em condição contemplativa, passageiros carregados de muito adeus. A minha memória empurra-me tanto, todavia quero permanecer aqui sem me bulir, quero ficar junto ao chão das camélias. Assistir ao modo como morrem bailarinas e sem aflição, parecem os sonhos da minha avó. A luz ali a brincar com as crianças e eu aqui quase pedindo a bênção às camélias como a pedia à minha avó; quase me acamando no chão para deitada melhor compreender como morrem com enlevo elevadas, as camélias; assim como também ela morreu, a senhora minha avó.
[sandra costa]

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15.3.07

O teu silêncio de alcatifa

E ser o silêncio desta alcatifa, deitado e aquiescente, pai. Ou aquela janela partida que hoje vi e de dentro da qual, tocada por todo o vento, o escuro velho da casa desenlaçava uma cortina pobre. Ser este caminho que ainda hoje me leva para dentro dos recreios. Ser este caminho e os pés dos seus candeeiros antigos. Ser o cabelo secreto de uma mulher muito velha de uma mulher muito velha, uma mulher que sempre foi velha. Ou então os dedos de uma criança apontados na direcção ampla do mundo ou das glicínias. Dar-me em ser as palavras que não digo depois das palavras que digo.
Ser-me dentro das tuas mãos pálidas e do teu silêncio de alcatifa, pai.
[sandra costa]

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14.3.07

Quando me olhas o teu olhar não faz barulho

Quando me olhas o teu olhar não faz sequer barulho. É discreto como a vassoura atrás da porta do armário e quando aponta para baixo lembra-me o andar miúdo dos velhos; olhas no encalço dos meus pés ou talvez do soalho, quem sabe no encalço de um vão cheio de nada. Vivemos aqui os dois, tu desse lado, eu deste, uma linha ao meio do nosso três assoalhadas lateja como uma cicatriz à superfície da pele. Sentamos à secretária de costas um para o outro e escrevemos, rasgamos papéis, recortamos folhas de jornal, cismamos sobre a agenda, acertamos nos relógios o mês e os dias, brincamos com um clip, devaneamos nas páginas, demoramos talvez bastante nos retratos da nossa juventude; e ainda que os teus olhos se encham de lágrimas quando nos retratos julgas que um dia fomos muito, e ainda que pesem muito os teus olhos sobre a secretária quando achares que nos retratos o mundo a teus pés; eu não sei, estamos de costas. Não sei se nas primeiras tardes de março te comoves com o canto dos melros, se ainda aceitas os meus decotes na extremidade outrora florida dos teus dedos, talvez te masturbes quando bato a porta e o faças a pensar que ouves a minha voz, a minha voz ali dentro, aquela dos retratos. Quando me olhas o teu olhar não faz barulho, parecemos rodilhas de cozinha. Estamos de costas um para o outro e o tempo que fomos foi sacudido do nosso segundo andar pela mulher-a-dias. Tombou na berma das ruas, entranhou-se como pó nos calções dos meninos que brincam no jardim, vai nas solas dos operários e pega ao trabalho às sete.
Mas se olhares para mim e fizeres no teu olhar um som, barulho seja, verás que ainda me comovo. Comove-me o cheiro concreto da lavoura quando na terra são rasgadas leiras fundas; ainda me comovem as rugas dos cabouqueiros, o modo como as mulheres do campo ajeitam o chapéu de palha e anunciam no regaço o abrigo breve da maternidade; comovo-me no cheiro forte das giestas conduzido vagamente pela aragem morna da primavera. E em ti.
[sandra costa]

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9.3.07

Por fim, expirar a infância

Eu quero pensar tudo. Mas quero pensar dentro de tudo. E quero, muito, sobretudo, estar em tudo. E depois, depois fenecer nisto:
Esgotada tranquilamente na luz desaguada da minha infância. Aquela luz. Aquela luz que entrava pela fenda das portas e abria derramando na cozinha os passos dos criados dos meus avós. Como um carrossel antigo, os passos dos criados. No repente vem-me um aroma de lápis afiado. O que é isto? Quando quero tudo acabo esgotada no asseio de muitas e queridas infâncias. A infância da minha boca que brincava junto das palavras de guarda de minha mãe. A infância dos pardais que demoravam sobre o lugar íntimo do poço. A infância das carícias do sol de Inverno. A infância do aroma fiel dos olhos de minha avó. Do murmúrio dos xales lançados às costas das mulheres velhas e dos bancos sozinhos de Outono.
A infância dos meus dolorosos amores espoletados pela secreta cor da noite quando a noite vinha das encostas do monte, perfumada e só. Eu amava. Eu amava com a mesma facilidade com que minha avó rezava as contas do rosário em frente ao retábulo dos apóstolos. Amava como Rute os caseiros tristes que vinham pagar as rendas à sombra do alpendre e amava sobretudo as suas mulheres caladas. Amava-as com grito, as suas mulheres tão caladas.
Sempre amei mais do que tive, sempre amei mais do que quis ter. Agora quero tudo por fenecimento. Saber como morre uma flor, um pássaro, o último Tempo, a infância, o primeiro Tempo. No repente, o aroma de lápis afiado. O que é isto?

[sandra costa]

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4.3.07

Até ao fim

É impróprio ser famoso
pois não é isso que eleva.
E não vale a pena ter arquivos
nem perder tempo com manuscritos velhos.

O caminho da criação é a entrega total
e não fazer barulho ou ter sucesso.
Infelizmente, nada significa
como uma alegoria andar de boca em boca.

Mas é preciso viver sem pretensões,
viver de tal modo que no fim de contas
venha até nós um amor ideal
e ouçamos o apelo dos anos que hão-de vir.

O que é preciso rever
é o destino, não antigos papéis;
lugares e capítulos de uma vida inteira
anotar ou emendar.

E mergulhar no anonimato,
e ocultar nele os nossos passos,
como foge a paisagem na neblina
em plena escuridão.

Que outros nesse rasto vivo
seguirão o teu caminho passo a passo,
mas tu próprio não deves distinguir
a derrota da vitória.

E não deves por um só instante
recuar ou trair o que tu és,
mas estar vivo, e só vivo,
e só vivo - até ao fim.

Boris Pasternak. É impróprio ser famoso. [Trad. Manuel de Seabra]

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3.3.07

Mais rostos do que pessoas

Já o disse? Aprendo a ver. Sim, estou a começar. Ainda é difícil. Mas pretendo aproveitar o tempo. Nunca tinha tomado consciência, por exemplo, da enorme quantidade de rostos que há. Existem numerosas pessoas, mas os rostos são ainda mais, pois cada uma tem vários. Há pessoas que usam um rosto durante anos a fio e é claro que ele se gasta, se suja, se quebra nas rugas, se alarga como as luvas que foram usadas em viagem. São pessoas poupadas, simples; não o mudam, nem sequer o mandam limpar.
[Rainer Maria Rilke. D’ As Anotações de Malte L. Brigge. Anotação 5. Trad. Maria Dias Furtado.]

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2.3.07

O livro dos retratos

Apercebo-me, conforme passam os anos, os dias, as horas, de que já morri várias vezes e de maneiras diferentes. Então sento-me e manuseio o álbum destes que parecem os meus pais e aqui são mais novos do que eu. Folheio o álbum como se ainda não tivesse nascido e estivesse, desde sempre, morta; apartada dos meus pais, mais novos do que eu e desde sempre mais novos do que eu.

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1.3.07

O futuro do passado

E conforme se acumulam e recordo os meus anos passados, mais antigos são os meus novos anos.

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