1.1.09
2.7.08
Entre a fecundação e o alívio
Acumulo esses dias da minha infância como se fossem os legos difusos do Carlitos, desse tempo o meu melhor amigo e que sobre ele os vizinhos julgavam tratar-se do meu primeiro namorado, consideração não de todo errada, uma vez que ainda hoje não vejo de que modo poderei iniciar as horas amorosas senão do jeito como eu e o Carlitos iniciávamos os passos na mesma direcção do compromisso sério das brincadeiras, a direcção que levava ao vaivém dos baloiços, o caminho que levava ao vai e volta das bicicletas.
Diante do jazigo dos meus avós, o efeito que me produzem estas recordações, invocadas também pelo cheiro abundante das tílias plantadas nos caminhos, leva-me aos lugares afastados do cemitério, sitos para lá das nuvens que o horizonte suavemente retalha.
Sou a menina por trás das sebes, debaixo do pequeno alpendre a que só eu chamava o alpendre das glicínias, construído à entrada da sala grande da casa dos meus avós paternos. Sentava-me num banco de ripas por baixo das glicínias que elevadas tombavam sobre a minha cabeça e me lembravam os ideais de Abril narrados pela minha mãe, a quem a memória da sua juventude hoje traz mais saudades da mulher que sonhou vir a ser, do que esperança na mulher a quem o tempo muito feriu. Já nessa ocasião, debaixo de um céu de revoluções perfumadas, eu sonhava vir a escrever tudo o que eu sentia debaixo de um céu de revoluções perfumadas. E se nessa altura eu tivesse tido caneta e papel à mão - coisa de que me esquecia sempre, porque a minha mãe obrigava a que eu e o meu irmão, depois dos trabalhos de casa resolvidos na sexta-feira à noite, guardássemos os materiais da escola em sítio que não denunciasse qualquer espécie de desordem da nossa parte – não fosse ter evitado o desmazelo que muito irritava o espírito zeloso da nossa mãe em assuntos relacionados com limpezas e arranjos da casa, com uma caneta e um caderno nas mãos, já nessa altura eu poderia e deveria ter escrito a minha vida passada nas casas dos meus avós, locais de sagrada inspiração para onde íamos ao cabo da semana; lugar de todas as visões despertas por uma realidade que agora não sou capaz de escrever sem que ingratamente mutile algumas das imagens que de tão essenciais escapam ao desvelo da melhor prosa ficcional. Por outro lado, nada que eu não pudesse ter resolvido com as canetas e os cadernos dos meus avós, não tivesse sido, no entanto, o acanhamento e o medo que, também hoje, me levam a esconder dos outros, e até de mim mesma, o ofício solitário das letras, como se este ofício fosse uma das canções clandestinas que a minha querida mãe ouvia à noite, deitada sobre a difícil esperança dos seus vinte anos.
Sentada no banco do alpendre, semelhante à menina aparecida numa fotografia antiga, durante muitos anos não escrevi nada do que os meus olhos infantis albergavam triste ou alegremente no esconderijo da memória, razão pela qual hoje não sei o que devo fazer com uma dor que, para além de a não escrever, de nenhuma outra forma a sei explicar. De onde virá esta dor e o que significa a existência de uma dor sem explicação que ora me consagra ao desabrigo das lágrimas, ora me entrega ao prazer infinito ocasionado pela visita inesperada das glicínias? De onde me virá esta que sou eu como o puzzle de um espelho? De onde procederá este corpo que nasceu estilhaçado, vocacionado ao espasmo de um silêncio atormentado por um tempo que hoje está doente; e ainda que eu me sinta tão saudável como me sentia no tempo alpendrado da minha infância, como explicar a debilidade de um tempo que outrora foi gérmen de força, parecia a eternidade? Estou saudável, posso dizer que sinto a surpreendente e generosa saúde da dor, no entanto sou incapaz de explicar esta dor que acontece entre a fecundação e o alívio, esta dor que acontece sem que haja parto entre a fecundação e o alívio; uma impressão que escapa à palavra, que acontece em estar prestes a acontecer, uma expressão fecunda que me vem do meio, todavia me escapa para as bermas. Não ser capaz de a explicar é como não ser capaz de escrever a sépia destes retratos ou a bondade ardorosa do sol descido ao rosto calado destes que amo e não sei escrever. É não ser capaz de escrever, motivo pelo qual, ao olhar os retratos dos meus avós, neles morro mais depressa do que escrevo. Concebidas para a ausência, estas fotografias devolvem-me uma morte consciente que excede as palavras, como se fosse possível separar o corpo da noção de corpo. Como se a escrita, entre a fecundação e o alívio da morte, não existisse senão para estar prestes a existir.
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22.6.08
Falar menos
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9.6.08
3.6.08
Aura
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27.5.08
Obsessão
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23.4.08
A janela da casa
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15.4.08
O que me fez melancólica
Fecho os olhos, já se foram quase todos embora e alguém da família resolveu fechar a última janela da casa. Ainda ouço a minha avó, que tinha um sorriso pequenino e acompanhava com as mãos as palavras que dizia, era senhora de uma voz doce e franca; quando falava unicamente para mim não apenas afligia o meu pensamento que, já nesses momentos agora recordados, estranhamente antevia os dias penosos da sua ausência, como nele manifestava o beijo carinhoso da boca de uma mãe levada ao rosto sonolento de um filho. Deitada sobre a coberta branca de renda, eu gostava de sonhar na cama da minha avó enquanto ela me proporcionava o prazer do aroma da costura e da atitude dos seus dedos bailarinos que no meu pensamento, enquanto costuravam, formavam pequenas convicções inabaláveis. Nunca soube o significado da palavra convicção, mas de olhos fechados, no quarto da minha avó, eu gostava de pintar nuvens imóveis dentro da minha cabeça, e também a água da chuva que um dia me fizesse lembrar a sensação de uma tarde de abril anoitecendo na imagem da melancolia de um momento, um momento igual aos momentos que eu costumava viver próxima de minha avó, nunca mais repetidos. Ali, deitada, eu imaginava as pessoas adultas que eu poderia vir a ser quando crescesse, erguia os olhos e sentia orgulho na minha avó, ela debaixo dos fios de luz que o sol crepitava numa das faces do seu rosto e eu, muito perto dela, a formar projectos de melancolia iguais às nuvens altas, limpas e imóveis que eu pintava dentro da minha cabeça.
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20.3.08
O texto mais calado
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19.3.08
Pai
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11.3.08
O lado invisível da felicidade
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26.2.08
A verdade
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22.2.08
30.1.08
Como se uma infância inteira
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28.1.08
Alegria de um pensamento triste
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27.1.08
O leitor eleito
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21.1.08
Que eu sempre sofri dos nervos, senhor inspector
I acto
Era uma vez um homem muito labrego e era também uma vez a mulher deste homem por seu turno quase fidalga. Ao tempo desta quadra, como já é costumança fazer-se, ambos atravessam o rio no curso da margem direita com o firme propósito de ali se proverem dos presentes de natal, quer na botica quer na livraria. Chegados à margem direita deram últimas instruções ao lacaio para que deles se não apartasse, pois que estava encomendado de carregar uns quantos arráteis de farinha e de apressar o custo da matança dos porcos para esse ano.
Dona Natividade, a mulher, aproveitando os vagares da travessia, apressava-se a rematar as instruções
- Tu agora se te desvias, Clemente, não peças para a boda da Livínia que te alijem o fardo; sempre me faço compreender ou como vem a ser? -
Livínia era a única filhinha do criado, chamado Clemente; criado aluado, mas leal. Enfezadita como a mãe, que Deus haja, muito amiúde Livínia perdia a presença de espírito. Um dia foi dada e achada no espigueiro sem os sentidos da fala e da vista, e pois à coitada lhe valeu o socorro de Bentinho com quem agora se vai à boda e que dando assim fé da moça mais apressadamente se aplicou em abrir as goelas
- Aqui d’el rei que lhe deu o achaque à menina Livinha, ai socorram! - do que em acertar com os suspensórios das calças.
Mas não é para falar dos trapos dos criados e dos padecimentos de suas filhas que vos dou conta desta novela.
II acto
Vamos que Pilatos, o marido labrego, era homem de temperamentos difíceis, mas por toda a aldeia o tomavam por docílimo e que jamais à mulher poderia dar mau viver
- Coitado, ali na lavoura enquanto a mulher dá ao folhetim com as mais outras. -
Um homem pois assim às direitas, com o calo nos dedos à conta da enxada e o chapéu manchado e lambuzado por contas do suor.
Uma vez na outra margem foram-se primeiro à livraria, o local da faísca que o da pólvora anteciparia. (Já vão perceber porquê)
O livreiro, o senhor Mário Péricles, com rotinas estendia sua boca pusilânime à mão da senhora Natividade, cumprimentava pururuca o marido desconfiado e dispunha-se imediatamente a servi-los com ímpetos de venda inflamados
- Para a dama os mais recentíssimos e acesos casos da carne. (dizia-lhe de viés, ao ouvido, conforme empunhava Thérèse Raquin)
- Pela sua rica mãezinha, senhor Péricles, tenha-me agora na conta das razões moderadas, que por causa desse senhor Zola e outros que tais já demasiados riscos corri debaixo das barbas do meu homem.
- Mas leve leve que não se arrependerá. -
- Ora então diga diga o que vai nesse, mas seja ligeiro. (ai a curiosa). - E Mário Péricles, abrindo o livro ao meio como se apartasse as pernas da dama, resume uma história de arrepiar os cabelos, de carnes ruborescidas e apelos da morte, de gemidos e de lágrimas sucedidos em sinistra alcova, de uma melancolia sem fim.
- Senhor Péricles, que calor de mil diabos me vai já nas carn...
(entretanto, abeirando-se o marido) - Ora bem, para a minha rica mulher quanto vai ser por esta Antologia de Pequenos Contos e outras Prosinhas de Natal? (E aqui começam os engulhos)
III acto
Por tradição, quase tão velha como o natal, tomavam-se de arrelias e teimosias um com o outro - marido e mulher - à conta das prosinhas dele e dela os romances encarniçados; todos os anos se assemelhavam - as prosinhas e os romances, marido e mulher - aos animais afrontados esculpidos em alto-relevo nas fachadas das igrejas.
- Mas o meu marido não entende, senhor Péricles, que estou cansada desses bacamartinhos e bacamartões? Pois este ano, Pilatos, repetirei a dose e levarei comigo o que vossemecê já sabe, isto é, o que eu bem entender que devo levar que tu mais do lagar de azeite entendes que dos prazeres da leitura.
- Pois isto há-de decidir-se este ano. Levarás as prosinhas e ponto final.
- Ai não que não levo. (estirando o braço, dona Natividade leva Raquin à mão do Senhor Péricles) Senhor Péricles, queira fazer o embrulho; muito agradecida.
- Olha que apanhas. (face à ameaça do esposo, atitude estreante para o senhor Pilatos, o livreiro viu-se obrigado a meter a colher)
- Vamos lá cavalheiro, o que vem a ser isto, olhe que "se amarra o cavalo à vontade do dono". Faça a vontade à sua mulher, não vê que em tudo lhe tem sido exemplar. E a senhora dona Natividade, vá lá, cautela não se relampeje, note que "duro com duro nunca fez bom muro".
- Ó senhor Péricles, eu dou à minha mulher o ditado que ela precisa. Olhe que "quem porfia mata a caça".
- O valente, queres ver? "Queres conhecer o vilão põe-lhe uma vara na mão"! (refilou a mulher lançando um riso cínico)
- (o marido batendo as palmas e sacudindo as mãos) Pois muito bem. Faça-se conforme a vontade da minha mulher. Embrulhe lá o folhoso que estou com pressa. -
Mário Péricles fez um embrulho em todo cintilante, como se dali a senhora Natividade fosse levar o ouro ao menino de Belém.
IV acto
Uma vez aviados saíram e já não foram pela botica, tampouco esperaram pelo lacaio. Caminhando às pressas parecia haver neles coisas urgentes a tratar. Sobretudo em Pilatos que, raivando para si mesmo, entrara no barco de trombas feitas. Natividade, vitoriosa, levava mais uma vez a sua avante. Todavia, a meio da travessia
- Faz o favor de deitar essa bodega ao rio em nome da minha honra que eu sou teu marido e te dotei, aliás, como deve ser.
- Como vem a ser o que dizes? (perguntou de rajada a mulher)
- Vem a ser como bem ouviste e não te faças de mouca. Eu à minha mulher hei-de pagar presentes de natal e não de arraial. Ora bota já isso ali para dentro.
- Diabos, nem que me obrigues. Que este lerei de uma assentada pois isto sim que é boa obra, fio-to.
Pilatos apertando a mulher pelo pescoço puxa-lhe a cabeça para fora do barco.
- Tu hás-de fazer o que te mando uma vez na vida.
- Tu estás fora de ti, homem! Larg... (gorgolejou a mulher a custo)
- Teimosa que te mato.
Pilatos, arfando, empurrou-a sem dó, a frio ao rio gelado. A mulher ainda veio à superfície um par de vezes e à superfície parecia rir; certo é que gritava com o livro em riste, sem nunca o largar, ao romance. E gritava acudam e gritava, acabando, ela mais Zola (salvo seja), por se ir ao fundo engolidos pelas águas.
Nesse fim de tarde o senhor inspector interrogava Pilatos, que havia retomado o seu estado habitual tão meigo que ele é para a mulher. Há-as cheias de sorte é o que lhe digo.
- Pilatos, como foi ser este acto crudelíssimo, Pilatos? - Perguntou o inspector, muito atarantado.
[fim]
[sandra costa]
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18.1.08
16.1.08
Anna

14.1.08
Houve uma porta que abria
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11.1.08
Instalação
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7.1.08
Um conto à lareira
Isto sim que é belo.Por este tempo, instigado pelo encanto das geadas de dezembro, aí por hora terça, eu costumava acompanhar Maria Migas à loja. Íamos pela lenha e sempre aproveitávamos para dar a volta às galinhas poedeiras. Minha avó, que muito acautelava, estendia-nos os mantos
- Aviso-vos que não vades sem eles que hoje sempre vai frio. -
A menina Maria Migas, a quem eu admirava estranhamente seus cabelos desgrenhados, trabalhava para os avós como se servisse a Deus. E da cozinha a roda-viva mais os trabalhos, sobretudo por estes tempos, digo-vos, inspiravam os meus olhos tímidos e a minha boca costumava corar. Eu que gostava tanto desses tempos, em alguns momentos, e muito me recordo, achava-me a sofrer por antecipação a dor que hoje sinto por terem expirado tal como expiram os poetas em fim de vida.
Perguntava amiúde se não tinham sido pintados os pormenores pelo senhor Siméon Chardin
- … da cozinha, minha avó?
- Não me absorva com as suas fantasias que hoje temos convidados. -
Sem querer aborrecia a minha avó enquanto abandonava os meus dedos em tudo o que abundava; na vidraria, nos talheres, nas bainhas abertas dos linhos das criadas, nos frascos das compotas, nos aventais, nas rendas dos cortinados.
Lembro que na parede, ao alto sobre a mesa dos criados, tinha sido suspenso um quadro pintado pelo amigo de família, o senhor Francisco Ribalta. Tratava-se de Cristo na cruz, abraçando a São Bernardo. Hoje recordo com vaguidade a leitura que meus olhos faziam daquela cena. Cristo, fechando abnegadamente os olhos, não estava exactamente aferrado à cruz de modo que durante muito tempo, isto é: até hoje, aquele homem não me pareceu Cristo; eu cria, nos melosos delírios da minha imaginação, tratar-se de Adónis ferido na anca, em atitude descendente, desabrochando nos braços de um velho um gesto de amor. São Bernardo, esse, retribuía com afecto vigoroso sobre a anatomia deslumbrante do salvador. Os rostos de ambos embutiam na expressão dos criados a ressurreição próxima de um mundo novo. Um mundo repleto de pecado e tranquilidade. Bem que intentou o pobre senhor cura em me abrir os olhos, um dia depois da ceia, atiçado que estava por um brutal ardor catequético
- Eis a verdade, menino. Aquele que ali vê, entregue ao madeiro por gente malvada, é Cristo, Jesus Cristo, filho de Maria e José, filho de Deus Nosso Senhor, redentor do mundo e salv...
Sem ouvir a parlenga até ao fim, senti, lembro bem, abrir-me na anca a mesma chaga de Adónis. A meio da noite fui espreitar a cozinha, Maria Migas dormia à soleira do lume e os dois homens do senhor Ribalta continuavam abraçados como homens e, naquele exacto momento, cheiravam a amêndoa doce ou seria dos cabelos então apurados da criada. Certo é que aquela visão, aliada ao cheiro veludíneo da amêndoa, me despertou, enfim, uma outra parábola que viria a rebater, até hoje, a verdade do senhor cura. Que a cozinha era um sorvedouro de pecado e tranquilidade, isso era, que consolo.
Também por usança, depois da nona, eu solapava-me por baixo da grande chaminé minhota. Maria Migas sentava-se comigo na outra ponta do preguiçeiro e baforava indolente os belos charutos que lhe oferecia o senhor Castilho;
- Não vá o menino, pela sua rica saúde, contar à senhora sua avó.-
ficávamos ali na espiral bailadeira do fumo, afundados na liturgia secreta da hora nona, corando muito sob o crepitar do lume.
A cozinha era um tratado demográfico e eu, não obstante as instruções rígidas de minha avó, proibindo por a mais b que ali me detivesse, perdia-me de bom grado nas lições dos seus habitantes. Em setembro, as tardes de entrega ao mordomo da casa das canastras de fruta da época representavam para mim o momento solene da bagunça. Acorriam a casa de meus avós os caseiros com suas rendas e as frutas maduras, de cujo sumo sinto o cheiro como se ainda escorresse dos meus dedos cansados, constituíam o pagamento mais puro prestado aos senhores mais nobres da terra, os meus avós. Maria Migas trincava nectárea a primeira fruta que lhe viesse à mão e eu, naturalmente, imitava-lhe o arrojo.
Igualmente vos trago, justapostos aos de cima, os vislumbres da doçaria de dezembro. Pelo Natal, a minha avó encomendava serviço - que pagava a peso de ouro - às noviças de um convento erigido nos arredores. A cozinha enchia-se de uma indisciplina sagrada; uma sorte de incenso de canela parecia despir a alma do hábito das sorores; ah, o momento da cítara quando as monjinhas levavam os dedos à boca. Ficava-me a ouvir os risinhos e entoações de louvor ao açúcar. Oh sim, aqueles momentos resgatavam o Cristo do senhor padre do terrível madeiro. Eu divertia-me, sobretudo quando dizia tolices que coravam as esposas de Deus enquanto delas recebia a primeira prova dos doces, a possibilidade de rapar o pote com a colher de pau, bênçãos aos beijinhos na testa
- Sua bênção, irmã.
- Ui, querubinzinho de nosso Senhor. -
Apresso-me, no entanto, a contar-vos a relíquia da cozinha. Deu-se numa das minhas noites sem sono, que eram costumeiras e a elas se referindo meu avô replicava,
- Que pior mal não poderias ter herdado de teu pai. -
mas dizia eu, atravessei em robe de chambre o amplo vão da escada e, como habitualmente diligenciava, fi-lo em bicos de pés pulando até à cozinha onde usualmente dava com Maria Migas adormecida entre as panelas de ferro; mas nessa noite com que salmo fui eu dar. Anestésico e vibrante momento, aquele. O senhor Castilho levava à boca da menina Migas as excrescências da alma, as luxúrias do corpo, que eu bem as ouvi. Arfavam como se tivessem estado a correr um atrás do outro nos jardins da maison; a repentinidade com que o senhor Castilho arremetia sua baixa cintura por debaixo das saias da criada conduzia-me à boca um travo estranho a jejum e prazer. No ar adensava-se o fascínio do canto nono camoniano e o aroma da coqueteria que eu dos romances de meu avô lia à sorrelfa e sem, até então, claramente compreender. Quão larga me soou a lombada daquele volume, tão tratadística a cozinha, da casa a delícia maior.
E se hoje recordo minhas teimas, minha lufa-lufa pela magna dependência, que nem as saudosas imprecações de minha avó me demoviam, é a este ditosíssimo momento a que supinamente recorro para conforto das insónias mais frias de dezembro. Testemunhei, com os dois amantes de Ribalta, a noite mais quente de inverno. E isto sim vos afianço que é bem mais do que belo. Não cuidem, por conseguinte, que a minha memória conserve maiores teres do que estes, os de cozinha. Todos mais hoje serão quebrantos, maleitas de peito, ou o calor de outrora que agora dá lugar a uma lareira fria.
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28.12.07
À luz das camélias
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20.12.07
19.12.07
Assunto predilecto

8.12.07
Natureza Morta
[Fotografia: sandra costa. Natureza Morta./2006]
(Clicar sobre a fotografia para ampliar)
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29.11.07
29 de Novembro
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27.11.07
Com Maria Rilke
inicio o calor das tuas mãos sobre o meu colo.
É em ti que guardo por fim a luz possível do céu negro
e me deito ante a cor branda dos teus olhos.
Tomas-me como se folheasses um gesto longo
e eu nada te digo para em tudo me dar.
(…) Agora arrombo em ti degrau após degrau
E o meu sémen sobe alegre e infantil. (…)
Oh entrega-te, para senti-lo aproximar-se
Porque tu vais ruir quando ele no alto acene.
[sandra costa e Rainer Maria Rilke]
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26.11.07
Tu és melhor do que tu
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor - muito melhor!-
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
[Mário Cesariny]
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25.11.07
A tia Aurora
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24.11.07
A coisa do cheiro antigo dos panos
E portanto, mãe, se me debruço à natureza do sofrimento sucede que mais sofro quando penso querer escrevê-lo. Que eu tenho medo quando as palavras se precipitam diante dos meus olhos só por te ver, sentada numa cadeira cosendo pela tarde, segura. Sento-me longe como se longe eu te olhasse de perto. Mãe, na minha cabeça o temporal forte de todas as coisas estremece o chão onde estou e tu serena como um tear. E a tua serenidade passa nos meus olhos como o linho no sedeiro e por isso não vem enfim sedar de vez a minha dor. Gosto dessa caixa de costura, mas porque tenho de nela achar a lividez do meu cansaço? Diz-me que não sou apenas eu que noto na pequena caixa a palidez de um doente. Toma-me nos teus dedos com a bravura de um dedal, protege-me mãe das agulhas que me ferem. Deita-me nas tuas mãos como o napperon que orna a salva. Faz de mim uma coisa sem mais ou talvez não te peça senão a aparência líquida da fiandeira, a simplicidade das linhas, o cheiro antigo dos panos. Desfia-me, ao menos, os abalos um a um e dispõe-me de novo como coisa velha protegida. Mãe, unicamente como coisa.Imagem: Ennio Pozzi. Mulher sentada, a coser.
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18.11.07
A dama sem camélias
Habituée dos bailes na villa do conde de Marialva e das estreias de madame Bernhardt, apeou-se em Calais na hora de vésperas. No declínio da rampa, irrompia na figuração oblíqua do seu pé direito conforme levantava desinteressadamente as saias. Esperava-a o conde, notando nela os detalhes de uma coqueteria tão mundana quanto elegante.- Senhora Gautier, como baloiça, destemido, esse belo exemplar que traz vestido. Delicadíssima, a lanilha.
- Senhor conde, que disparate. Vem a ser hora do chá na maison da senhora Rampling. Sigamos.
Nessa noite a senhora Gautier não surpreendeu, como é hábito, unicamente pelas glórias do corpete. Ao soar das completas, fez-se anunciar no salão nobre e foi tamanho o espanto das damas e dos cavalheiros. Na mão direita os binóculos para a peça de George Sand, na esquerda a caixa dos bombons, vazia. Todavia, nem uma só braçada de camélias. Nem uma só braçada de camélias tomada nos braços, agora amargos, da senhora Gautier.
[sandra costa]
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15.11.07
11.11.07
Geometria humana
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10.11.07
8.11.07
A queda do tempo
Etiquetas: Recorte
Tudo em muito Particular
[Proust: Em A Confissão de Uma Jovem. Cap: O Fim do Ciúme. Trad. Serafim Ferreira.]
Etiquetas: Fontes
6.11.07
1.11.07
Aos meus mortos
Aos meus mortos - envergando dentro de mim os detalhes de Tissot, veludos e sedas, luxuriante e um livro me basta debaixo do braço; o brado das estações na atmosfera e no meu peito a voz baixa de minhas memórias imperturbáveis - sorrindo da melancolia, levo a ternura das bordadeiras, embarco-me na sua direcção.
[sandra costa]
Etiquetas: Memória (in)voluntária
30.10.07
A virtude capital
Por isso, os maiores escritores, nas horas em que não estão em comunicação directa com o pensamento, entretêm-se na companhia dos livros. E não terá sido sobretudo para eles, aliás, que foram escritos; não lhes desvendam eles inumeráveis belezas, que permanecem escondidas aos olhos do homem vulgar? Bem vistas as coisas, o facto de os espíritos superiores serem aquilo a que chamamos livrescos não prova de modo algum que isso não seja um defeito do ser. Do facto de os homens medíocres serem muitas vezes trabalhadores e de os inteligentes muitas vezes preguiçosos, não se pode concluir que o trabalho não seja para o espírito uma disciplina melhor do que a preguiça. Porém, encontrar num grande homem um dos nossos defeitos leva-nos sempre a interrogar-nos se no fundo não seria uma qualidade desconhecida (…).Etiquetas: Fontes
25.10.07
Dimensão Humana
Etiquetas: Fontes
19.10.07
14.10.07
A realidade híbrida dos sonhos
Etiquetas: Arte plástica
Vestido de seda
[Lev Tolstoi. Anna karénina. Cap.XXV. p.526. Trad. António Pescada.
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11.10.07
As primícias das camélias
- Por que chora, prima Fernandinha?
Eu, em outubro, encostava-me ao madeiramento do alpendre e desatava a prever o sabor das tangerinas e as geadas de dezembro. Isto enquanto de dentro minha avó tomava chá com o senhor Mário Péricles, livreiro da casa, perdido de encantos pela mãezinha.
- Minha senhora, permita que lhe leia o que dizem os poetas do seu rosto. – a mãezinha soía corar e logo retomava, a condessa De Seramotta, as formas de um certo requinte.
De repente, das primícias das camélias, as multidões do meu passado detêm-se nos aposentos fechados da minha solidão, como espectros, como os retratos.
- Não chore tudo isso que de provas lhe tenho dado, prima Fernandinha.
Sim, das camélias, minha boa avó, hoje a sombra das camélias sobre a minha dor amputada.
[sandra costa]
Etiquetas: Romance
7.10.07
5.10.07
As horas dos livros

Marcel Proust. Em O Prazer da Leitura. Titulo original: Journées de Lecture. [Trad. Magda Bigotte de Figueiredo].
Desenho: Gustave Courbet (1819-1877). Retrato de Juliette Courbet enquanto criança adormecida.
Etiquetas: Fontes
1.10.07
1 de outubro
Etiquetas: Memória (in)voluntária
29.9.07
Devagar a serenidade
Que me leias pausadamente o que foi a luz de outono na aurora das manhãs de ontem
Quero um sono que suba uma escada espiral e adormeça no alto da planura do teu colo
Que me digas do tecido dos teus dedos o agasalho eterno dos sonhos
Quero que me sacudas os medos e me traces a rota dos Homens bons
Que me rasgues de dentro a morte e a derrames aos pedaços na leva do vento
E se não for pedir-te tanto
Repete-me muito devagar as horas do teu silêncio inclinado no meu peito
Faz de mim, devagarmente, a criança adormecida de Pozzi.
[sandra costa]

Foi proposta a atribuição a Domenico Fiasella (1589-1669)]
Etiquetas: Poesia
23.9.07
O caminho do conhecimento
Etiquetas: Recorte
22.9.07
Assisto da escrivaninha à largada do Verão

Enquanto talho uma outra pena e preparo as tintas velhas
Assisto da escrivaninha à largada do Verão
Dos meus tinteiros sairão moços e moças no caminho da escola
E os livros deles em cestas lembrarão
O transporte de um Outono mais pobre e desamparado
Não tarda, diz-me a ampulheta, sorrindo a leiteira lamentará o frio e outrora
E eu lamentarei não ser lascada da cepa da leiteira
Pois infrene e atormentada é a minha devoção
A um tempo que cinzento acende devagar as luminárias
E tomando-me nos braços vem deitar-se nos meus olhos
Assim como em Francisco primeiro Leonardo veio encontrar último afecto
Também a mim me cabe a desditosa saudade
De lentamente morrer em colo amigo
E como lamento não ser lascada do assombro dos moços e das moças
Pois quero sem querer com os meus olhos sobre pergaminho chorar
E lavar com o sabor da minha dor
A entrada tão cedo autunal dos meus caminhos
E dos meus passos chorados caminhar
Não sair de mim nem desta melancolia sair
Doerem-me os dedos dos pés sempre de repetente
De repente fazer-me à consciência aventurosa da dor
Sentir-me mais e mais me sentir
Pessoa ou dor
A dor de ser pessoa.
[sandra costa]
Etiquetas: Poesia
14.9.07
Que dor maravilhosa
Etiquetas: Memória (in)voluntária
3.9.07
Retrato

Os banhistas passam, mas nem sempre param. Os banhistas passam, mas nunca reparam. No olhar da vendedora de peixe seco que, solto e a campear, veio como terno repousar o meu.
[Texto e Fotografia: sandra costa. Vendedora de peixe seco.]
Etiquetas: Memória (in)voluntária
31.8.07
26.8.07
A invasão poderosa da noite
Etiquetas: Fontes
22.8.07
Cinema: a explicação do silêncio
Os arquivos da História estão dispersos um pouco por toda a parte; felizmente desarrumados pelo mundo, esses arquivos admitem os fragmentos de um pano de (in)certezas acontecidas (ou não), abrigo de um corpo histórico (Homem) que, na sua totalidade, prefere migrar nu. Dos variadíssimos repositórios de memórias emerge o cinema, sublime arquivo de idiomas visuais, existe para melhor vincular os seus leitores às imagens sem-fim do devir mundano. Imagens que se movem na tela e nos transportam para lugares de fora e lugares de dentro; imagens que, diante de nós, no imediato parecem estar, estar sem mais e, no entanto, oferecem ao nosso imaginário atento a expectativa do lugar inesperado quanto infinito: o lugar longo e volátil do idioma jamais falado. Na sua plenitude, a imagem existe, em suma, para dar lugar à imagem, não escapando, portanto, à sua dimensão mais pura: o silêncio. À impossibilidade de explicarmos por narrativas outras o completo devir humano, a linguagem fílmica na sua projecção silenciosa actua com sucesso sobre o silêncio do leitor projectando-o, ao leitor, na tela, lugar onde, afinal, parece assentar mais possível a explicação do seu próprio devir, o devir íntimo. Em cinema há um movimento universal de transferência de silêncios visuais que anima a desarquivação de toda a História, a nossa e a dos outros, deslocando, por isso, o nosso tempo para o tempo dos outros e vice-versa, aproximando-nos dos tempos e dos lugares que nunca foram nossos, mas nos quais nos identificamos. Por conseguinte, o cinema é justo, porque ilimitável; projector da imagem-ponto de fuga rumada ao seu próprio ponto de fuga; na boca silenciosa da imagem o cinema antecipa a explicação do mundo - o nosso, íntimo; o dos outros, igualmente íntimo; é pois o corpo que migra mais nu, em silêncio, transportando um colectivo fragmentável de íntimos silêncios, procurando-se uns aos outros, reencontrando-se uns nos outros, no exacto ponto entre a vida e a tela.
[sandra costa]
Etiquetas: Cinema
19.8.07
Lento
Etiquetas: Recorte
18.8.07
Episódios e o Tempo

Eu estou aqui e sinto-me como fui todas as meninas de Bonnard. Da varanda, neste justo momento do meu verdadeiro e desacompanhado gosto pelas coisas, noto nos pássaros como voam baixo quase colhendo o chão da terra, e há muitas cores nas roupas das crianças que longe correm atrás de bolas. Aqui como também nos jardins da minha infância, dentro da moldura dos buxos, os ciprestes cumprimentam com elegância a harmonia das oliveiras e tudo isto é feito de um momento de paz total, como se a luz convivesse íntima no silente mistério da sombra das árvores.
E se daqui os meus olhos prolongam o jogo das crianças, canta soprano a minha infância e em todos os relógios do mundo os minutos rompem a dispersar como horas. As horas que mais magoadas vêm soletrar-me uma quietude mais magoada fazendo com que eu chore por trás dos olhos e narre em segredo, como Proust, os caracóis outrora cortados do meu cabelo.
Despejando os meus olhos nos olhos delas, pois eu entendo que no olhar das crianças descansam todas, todas as imagens do mundo, eu sinto-me uma nostalgia tão grande semelhante a saudade, porém mais sustenida, tão-somente igual a nostalgia. E abrindo um rumo que em mim autónomo vive apartado da multidão o seu olhar potencia nos meus pés um certo padecimento ligado à partida. A minha infância, sim, a minha infância, personagem latente de um livro sem páginas, estética da suspensão de um movimento em potência, a minha infância. Latente em um carro de bois. Descendente das videiras de Verão. Um chapéu gasto das lavouras de Outono. Uma fonte. A cúpula do céu à distância dos meus encantos de menina. Fiadas de alvenaria de uma casa abandonada. Janelas e portas, escadas e torres, arcos e arcadas, frontões e empenas, uma cobertura todas as coberturas, um lenço bordado, os lentos passeios de carro contra o nevoeiro na subida para Tormes, meus pais, meus pais arquitectos do meu fim, tudo o que de repente me dói e que sinto como um dedo cortado.
Eis que dali vem outro. Se abandonados os caminhos-de-ferro transportam a terna medida do eterno, mas em havendo comboios neles, como os que aqui desde há tanto Tempo passam, muito em mim se desata e agita ferindo-me aos golpes.
Chega forte, tão ao pé de mim, o som dos comboios quando passam junto ao rio que a minha infância os deve ouvir do seu lado. Dentro deles migram pessoas dormidas de olhos tristes, pendulando às janelas, com rumo certo ou sem crianças. Muitas vezes julgo sentir-me capaz de apanhar o próximo, apear-me no esboço dos primeiros Santini de Valbom, partir com outros meninos no curso incerto do Verão mais antigo. Todavia, vai-me durando esta cadeira de jardim quente à conta do sol, apenas por causa do sol está quente esta cadeira de jardim e não houvesse dia e estaria fria. É que à noite há noite e eu dou-me em julgar, sem razão clara, que quando chorarem as primeiras nuvens de Outono esta cadeira será, e caladamente, noitamente, a mais fria de todas. Já sem a vista desolada, ainda que tranquila, para o que fui quando sentada nela, melancolicamente, eu demorava em episódios o Tempo da menina que já não sou.
Um pormenor no avental de minha avó. Os detalhes, minha infância completa rasgada aos detalhes. E sempre, discretamente, a alpendrada poética dos Homens do mundo.
Etiquetas: Memória (in)voluntária
8.8.07
Uma noção de certeza na ausência das coisas
Etiquetas: Memória (in)voluntária
25.7.07
Ideias visíveis

Etiquetas: Fotografia
20.7.07
9.7.07
Que mulheres ainda estas videiras
Etiquetas: Memória (in)voluntária
Episódios tranquilos de uma noite de Verão
E esta noite dou por mim calada todas as noites.
Sento-me neste banco
e o meu pé esquerdo deita-se em segredo sobre o meu pé direito.
Aliso devagar as pregas do meu silêncio
como se o fio dos meus dedos desenhasse a tranquilidade,
a tranquilidade das borboletas.
Os sóis do mundo brilham das mãos de meu pai alfaiate
E acode-me esta serenidade do giz e da régua
e dos tecidos e das linhas sobre a grande mesa de meu pai alfaiate,
esta serenidade que pousa idosamente sobre o macio chão da minha boca calada.
Sou a escalada do meu silêncio na direcção da casa da padeira
Um funeral sem gente atravessado pelos relentos de Verão
O quintal de meus avós ali deixado, as videiras, um carrinho de mão
Um batalhão de meninos que trazem segura por suspensórios a infância das flores
Se choro é por estar serena que me dou em chorar
Não trago nos olhos cansaço nem nada, apenas tudo elevadamente
E talvez por isto talvez enfim me canse
Tranquilamente.
[sandra costa]
Etiquetas: Poesia
29.6.07
Palavras
Etiquetas: Recorte
18.6.07
Decido o gozo voluntário das tílias
Hoje escrevo tudo isto e tudo o que sinto sobre tudo não chega a ser completamente póstumo, pois que decide o meu pensamento intenso permitir que todas as pessoas e todas as coisas principiem a nascer verdadeira e voluntariamente sempre que à superfície das lajes do tempo eu aceito a certeza da sua morte verdadeira e involuntária. Principalmente a do aroma, do aroma do gozo inflamado das tílias.
Etiquetas: Memória (in)voluntária
12.6.07
Olho(s) das janelas capítulos de um livro
O nosso arquitecto, o senhor Lars Bo, que subidas vezes ainda julgo ver no alpendre a despedir-se da mãezinha, traçou por largo tempo o que são, na cottage do marquês de Tormes, meu defunto avô, as janelas através das quais eu hoje não vejo ninguém. Nem os vestidos da mãezinha habitualmente encimados pelo estilo regência dos seus brincos, nem o avô no filmar das tardes, sentado muito recto por baixo das amendoeiras, cria que a aproveitar a brisa do sul folheando manuscritos que ritualmente lhe dava a ler o amigo de família, o senhor De Queirós. Estou aqui a olhar para elas. Cada uma das janelas da villa foi isolada e deliberadamente voltada para uma existência exterior irregular, independente e sozinha. Durante muito Tempo eu julguei que habitava dentro de um livro, destacando através de cada uma das janelas capítulos separados dentro dos quais passeavam damas e cavalheiros e as crianças saudáveis que fingiam tombar no chão como a ponta das trepadeiras.
Mais tarde, é claro, a morte do avô revelou-me a silhueta obscura das janelas, o jeito perverso como na minha vida a janela de guilhotina do quarto do marquês meu avô introduziu a abertura para o fim certo de todas as coisas. Foi dessa janela que o meu olhar, em afilada perspectiva, se despediu do meu avô. Eduarda Maria, filha de D. Gomes de Pombeiro, contava a minha idade e costumava acompanhar o pai às quintas, dia durante o qual o avô recebia na villa. Recordo bem, eu e ela na dependência luzente do avô, assistimos ambos ao afastamento da urna para lá do envidraçado da janela de guilhotina. Depois sentámos na cama e o linho pareceu-nos, aos dois, muito crivado pela doença. Naquele dia foi encerrada para sempre a primeira janela da casa, episódio que hoje me serve de metáfora ao rebentar das minhas tantas visões desapontadas com o mundo.
Já que falo de Eduarda Maria, nome sugerido pelo senhor De Queirós por alturas em que este andava fustigando à pena dezenas de fólios para um novo romance, digo-vos que namorei silenciosamente Eduarda Maria, jovem pianista à conta da qual eu acorria inúmeras vezes à janela de batentes do meu tímido aposento. Debruçado na soleira da janela eu aturava, ali, temporais de horas à espera de ver sair Eduarda e minha mãe da estufa ornamental. Lido das janelas das casas, este é o capítulo tão velho como o da morte, o do meu amor encantado e estremecido por Eduarda Maria.
Como lembro. Na estufa, Eduarda delongava-se com a mãezinha e a criada do jardim, Maria Augusta. Prendiam-nas as azáleas e o perfume das cravinas. A celeuma provocada pela epañol acusava o fim do cerimonial das flores e a hora triunfal do chá. Da janela eu reparava como Eduarda Maria aproximava delicadamente o corpo na direcção da casa; estrutura complexa, os seus passos, anunciavam a chegada de todas as estações do ano e injectavam respeito à paisagem pitoresca da villa. O avô, o senhor de Pombeiro e eu descíamos ao pátio eirado e ali nos demorávamos junto das damas, soprávamos o chá informalmente e também informalmente os meus olhos se fantasiavam da boca da menina Eduarda, aquela boca repleta de beijos por mim inventados. Celebrávamos, por fim, a hora divina das quintas-feiras. Os criados abriam as janelas salientes projectadas na fachada da casa e dos grandes vãos entrava uma luz vasta e decorativa. A menina tocava para nós. Eu lembro ingenuamente aquela hora, como sobre as teclas do piano primeiro a mão esquerda da menina Eduarda seduzia a direita e como eu me interrogava acerca do grande mistério da largada daquele par de mãos. Na hora da partida, eu subia novamente ao lugar da minha janela e despedia-me ensimesmado. Para onde levaria a pianista aquelas duas mãos que não eram dela?
Eduarda Maria aconteceu, de todos os modos, como tocata fugaz na minha vida. Deixou a fantasia espalhada na paisagem da villa e partiu com o pai para habitar um petit chalet suíço. Passei a namorá-la a frio da janela do meu quarto, de modo que a minha janela, como metáfora de uma segunda visão desapontada, passou a criar cenários escuros de uma esperança nua e sem contornos. Daí em diante, todas as janelas da casa, bem como as portadas delas e os cortinados de veludo seda, foram sendo fechados cadenciadamente, tal como capítulos de um livro que cegaram e para sempre se calaram.
Por vezes, do olhar da janela palladiana do antigo quarto da mãezinha, pressinto que ainda se ouve a harmónica do amola-tesouras anunciar as primeiras chuvas. Lembro que, não demorando, daquela janela se abriam as águas do céu, como um lençol lavado, pousando sobre o vasto verde das árvores. As brumas declinavam ao ritmo natural dos meus olhos adivinhando-se numa outra janela, a da sala novo-manuelina onde minha mãe lia o senhor Tolstoi e chorava o desencanto, um manto cinza de nuvens descendo sobre a terra.
No conforto de dentro apetecia apear o grande lustro de vidro veneziano, tocá-lo com melancolia, detalhadamente, acompanhar em silêncio o musical das páginas folheadas por minha mãe.
Eu estou aqui a olhar para elas. A visão das janelas, toda ela agora cerrada, deixou de olhar por mim o regresso do senhor Lars Bo a casa, minha mãe diligente e meu avô debaixo da coloração doce das amendoeiras. Os meus olhos cansados esgotam-se no enfermo deslize das noites, quase não lembro o som dos dedos luminosos de Eduarda. Por onde andarão aquelas duas mãos que não são dela? Qual a janela que me revelasse este segredo e que o senhor Lars Bo não esboçou?
[Texto e fotografia: sandra costa]
Etiquetas: Romance
10.6.07
A postura das horas paradas
Etiquetas: Memória (in)voluntária
7.6.07
Consentimento
Etiquetas: Recorte
4.6.07
O sofrimento como possibilidade bela
Na esteira do fílmico o sofrimento em câmara lenta parece o único susceptível de ser sempre possivelmente belo - maior das provas é a obra completa de Luchino Visconti, cuja ferida mais empenhada – espoletada por uma derradeira e extrema perseguição do Belo - se permite viver corajosamente, abrindo-se por completo para escolher entregar-se deliberadamente à morte no lugar de Veneza, ou direi mais bem dito, no lugar de Tadzio, iminente e tão exequível personificação do Belo. Talvez por esta razão, deveras paradoxal, vem tantas vezes o cinema, como um Deus de carne humana, reconciliar-me com o meu sofrimento quotidiano, permitir-me achá-lo momentaneamente disposto a ser-me belo e, no âmbito da procura (as mais das vezes desesperada) dos lugares impossíveis, recebê-lo pacientemente para lá dos limites, imputados ou não, do meu próprio corpo.
[sandra costa]
Etiquetas: Cinema
3.6.07
Mãe de minha mãe
Etiquetas: Memória (in)voluntária
1.6.07
Pai
Etiquetas: Memória (in)voluntária
19.5.07
A condessa [dedicado]
A condessa Yablonskaya é uma mulher, pode dizer-se, gorda. Seus olhos, igualmente fartos, certo dia encantaram com viço o comandante francês Louis Antoine. Arribado de muito longe, o comandante foi dar, no acaso das lidas da luxúria, à maison da condessa Yablonskaya, à cama da condessa Yablonskaya. Conheceram-se numa das habitualidades de soirée em casa da condessa. A senhora Yablonskaya, por muitos e preclaros motivos, é a predilecta de todos; descansa pouco o que lhe vale um par de olheiras tão belas como duas luminárias e, leitor, não sabendo se me farei entender, assevero, no entanto, que esta dispõe nas maneiras um certo avanço de estar no mundo. Quando se alegra parece um jardim em flor e todas as confirmações do comandante a fazem desabrochar do rosto ramos de camélias brancas. Meu leitor, não há cor tão honesta quanto a do branco camélia, o branco magnólia, o branco coco. Assim, honestos e nevosos, são os olhos de Yablonskaya, muito surtidos do seu rosto redondo e apontado, absorvidos com chama como dois troncos numa lareira.O comandante, por sua vez, entre a multidão faz-se notar imediatamente pela voz, que esta no pino do inverno inflama o peito da condessa e demais mulheres - cocotas disfarçadas à la noblesse e vice-versa - uma voz de papel liso e brilhante que amiúde diz com simplicidade:
- Senhora, encantado.
Aos pedidos da condessa, ele anui com uma prontidão exacta como seja rogo divino. Casal, perdoem a infelicidade do termo que outro mais impreciso não me ocorre, feliz.
Conto-vos como foi que Louis Antoine se achou então na confirmação da suspeita de amor. Certa vez, ao dirigir-se a ela num desatino infantil, Louis Antoine tropeçou nas palavras frias da condessa:
- Não posso deixar de notar, senhor comandante, que um certo interesse seu demonstrado por minha pessoa me leva a desprezar-me ainda mais. Dou-lhe, todavia, a ansa de se retirar para sempre ou, no contrário, conhecerá, por fim, de que é feita a própria volúpia.
Logo as palavras frias desataram a arder nos olhos do comandante.
A condessa Yablonskaya é uma mulher, pode dizer-se, gorda como Deus; abanca-se na longa espreguiçadeira e fuma do cachimbo com enorme disposição para a vida. Conheceu um comandante destro que lhe oferece o aroma das buganvílias por carta quando vai o comandante de estar ausente. Ela gosta. Ela gosta muito, descuida-se da sua habitual compostura e verte duas lágrimas junto ao canteiro dos amores-perfeitos. Como é gorda e sensível a condessa Yablonskaya. Como se abre na cama e se dá talentosa aos acometimentos da carne crua do comandante. Eriçados e embrulhados contra a parede, seus corpos confundem-se com a ramagem colorida das buganvílias quando dão em trepar pela fachada axial da casa. O que fazem na cama atiça a inveja dos criados que palram às damas as poucas-vergonhas dos senhores.
- Mas tal e qual, baronesa De Ville. É como lhe conto. Vai dia e noite o regabofe àqueles aposentos; ninguém diz pela frente o que seja a senhora condessa por trás, senhora baronesa.
- Não me diga, criada?!
- É como lhe digo. Agora queira dar licença que tenho de ir abrir o cancelo do jardim ao hortelão.
Quando elevados sarau dentro assuntos em torno do estado do mundo e do Homem, são o casal, sem que sejam exactamente um casal, repleto de aporias e delícias, a condessa e o comandante.
- E um bando de pataratas é o que somos. – Na discussão ateada por ela mesma, conclui sempre do mesmo modo, a condessa.
Dedico esta história sem pés nem cabeça às mamzelles que tanto idolatram, com cortesias e provocações várias, os modos sérios desta vossa servilheta. Espero que gosteis desta condessa, que vo-la preparei em lume moderado enquanto aos pinotes meu olho direito secretamente se deliciava na cama com Puchkine.
Etiquetas: Romance
7.5.07
Fecho os olhos, aprendo a guardar a chuva
Esta casa. Esta casa entregue a um resto de pó e às nódoas da toalha da cozinha. Eu olho a mesa da cozinha e ela tão calada, vai para muito tempo que as nódoas da toalha choram baixo, olho a mesa cheia de chuva a mesa tão calada. Esta casa a naufragar aos poucos. Então fecho os olhos e eu muito longe deste lugar errado, muito longe, sou quase a primeira versão do meu corpo nascido para o mundo. Já fui uma criança e de repente sou talvez. Fecho os olhos e a minha memória abre um prado repleto de imagens que desfilam na minha direcção como bailarinas. A ponto de chorar, sinto de repente que volto a ser quase o que estritamente sou. Que ternura forte, como é sábio fechar os olhos, abrir o mundo sem barulho.
De olhos abertos não passo de um brinquedo posto e tolhido em cima da televisão, ao lado dos meus avós vivos; os meus avós que vistos do vosso lado até poderão parecer dentro da moldura, mas não; que na pura verdade do avesso dos meus olhos estão sentados na eira, os dois à conversa com os criados e um dos criados, por acaso, pica-se na roseira e leva o dedo à boca; sobre os dois paira um ar de maio que vai à passagem das mulheres de preto para enfim regressar o ar de maio aos apelos simples da eira, como, por exemplo, a invocação gloriosa das chinelas de verniz da senhora minha avó ou da mão de meu avô tímida abrigando a mão dela.
Fecho os olhos para cavar a minha vida, exumar um lado mais próximo de mim, um lado mais perto do que sou. Há-de rebentar deste gesto sem ruído uma vida mais próxima do que sou e que virá como uma voz derramando sobre mim uma existência feita de verdade. A verdade da fantasia. A fantasia das coisas. Essas coisas que não cessam de nascer por dentro delas mesmas e que sendo, afinal, tão infinitamente íntimas não morrerão nunca essas coisas todas, andam por aí à solta a nascer um ror de vezes dentro delas mesmas. Ah, que bonito isto.
Fecho os olhos e um lugar mais perto do que sou e o que sou compreendendo muitas vidas, eu a chamar-me tantos nomes. Um lugar onde o meu corpo é começado, como manando da terra e do vento posto. Onde me chamo melro e acácia, a minha solidão enfim escancarada num campo aberto, a cheirar a parreira, ao sol, à terra depois de lavrada. Um lugar onde do alto caia o Verão todo sobre mim eu restolho, e tudo o que hoje chove em toda a parte desta casa mais não chore.
Fecho os olhos e um bando de pássaros, um bando de pássaros traz-me uma braçada de pormenores macios que enxotam a chuva para longe. Minudências como sejam o cansaço tranquilo das águas de um ribeiro, uma galinha a bicar ali e acolá, o gáudio das desfolhadas, um tanque grande, a pegada de um cão abandonado.
Quero esse lugar onde os meninos se aproximam de mim e tratam bem os meus olhos velhos.
Eu que ali seja tão feita de carne, tão cheia de carne e, portanto, uma fonte de nostalgia a jorrar sobre o horizonte; eu, o voo da melancolia sobre os arrozais do Mondego, eu a dizer ao mundo inteiro que o meu nome é relento. E o mundo, que em mim crente, desata a acreditar.
Etiquetas: Memória (in)voluntária
5.5.07
Que parta o cheiro antigo das glicínias
Vêm estas personagens escrever-se na minha cabeça e eu condenada a criar uma história sem paradeiros.
Sem paradeiros para nada ficar a saber de Maria Inácia, de Juliana Jorge, tão-pouco do bispo, senão os seus nomes, já se apresentaram, nada mais.
As minhas personagens, à medida que chegam, inclinam-se, escrevem-me tudo sozinhas, mas depois partem, sem aviso partem muito depressa, juntas, e eu fico para aqui só, com a saudade mais para dentro como o cheiro das glicínias nos meus dedos apertados. E ficam inteiramente confusos, os meus dedos, por causa das glicínias, estreitos, os meus dedos.
Mas hoje eu quero, destes nomes, destes nomes trazidos pelas glicínias, deixá-los ir antes que partam sem mim e me pesem sobre a coluna, como sempre, um sabor infinitamente só. Eu não quero enternecer-me quando vastamente Maria Inácia mergulhar a criança no colo do pai. Eu não quero a nostalgia quando um sorriso de pai cobrir a boca de Bastião de um mundo todo à margem. Antes que me cheire a suor e sangue de parto, eu não quero saber mais nada de Maria Inácia, da suave Juliana crepitando soluços, do verdadeiro e intacto orgulho do bispo. E, sobretudo, daquela feliz criança, tão longe de uma dor que a mim me morde profundamente.
Hoje condeno a minha solidão. Vai à autópsia sozinha e depois colherá flores de cemitério, que essas, decerto, não cheiram a glicínias. Todos os mais que insistem descer sobre mim, colocando-me no peito esta boca de dor severa e escura, todos esses que partam pois quero que sigam, sem paradeiro.
[sandra costa]
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27.4.07
12.4.07
O meu silêncio está a ganhar metástases
Há algumas coisas que me impedem de escrever, ou, mais bem dito, talvez – sem exagero - tudo me impeça de escrever. Se eu que sinto que tudo é mais forte do que eu, que tudo se aproxima de mim para me abalar, que tudo o que no mundo existe diz sempre mais do que alguma vez dos meus dedos e da minha boca e dos meus olhos direi, então eu não posso estar a escrever. Eu nunca escrevi. Quando muito, estarei a sentir um pouco de tudo isso que há por aí; também a sentir um pouco de quase; quase a sentir tudo, mas ainda pouco, quase lá, mas ainda longe. O meu silêncio está a ganhar metástases. Se hoje nunca escrevi, o que direi de amanhã se é na minha infância sem palavras que eu morrerei? O meu silêncio está a ganhar metástases. Posso dizer que sim, que há algumas coisas que me impedem de sentir. A coisa da doença impede-me de sentir. É como uma lobotomia que me corta o cérebro todo aos pedaços e depois vai o meu cérebro todo à boca de cães esfaimados. A doença. A doença inventaram-na quando um dia entrei em casa dos meus avós e afinal os meus avós foram sempre retratos. Um tiro. Um tiro na cabeça de quem me enganou durante tanto tempo. Eu cuidei que haveria de cheirar os cabelos da minha avó para sempre e afinal. Afinal são só portas fechadas, janelas fechadas, as videiras por enxertar, os criados em parte incerta, poças de água que em abril parecem mais tristes, de repente a assustadora alegria das azáleas e o fustão de melros no ar trespassando o bálsamo licoroso das glicínias. Tudo começa a fechar a envelhecer depressa demais, menos os melros, menos as glicínias, menos todas as coisas que não falam a linguagem difícil do Tempo. Não falam tampouco. Há uma noção completa de felicidade nas azáleas. Mesmo nos charcos tristes de abril reluz um conceito de eternidade que eu nunca saberei explicar. Até a minha infância envelhece quando me dou fé de a tratar por dona infância, mas ainda assim não fala, a minha infância. Tam-só com tudo se comove quase muito e é nela, sem palavras, ela feita do mistério inacabado das flores e dos pássaros, que eu um dia, certamente, morrerei.Ao António Lobo Antunes, que ficará bom depressa, porque temos um café pendente. E Lisboa – tal como ele me garantiu – não é assim tão longe. Quero, para sempre, nos meus olhos uma mão cheia de ti.
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9.4.07
2.4.07
Do lado silencioso do mundo
Onde cai uma sombra sento-me à sua banda e disponho-me, num gesto momentâneo que também é de leitura, a cheirar os meus livros antigos. Deles raiam histórias de muitas pessoas e de certas coisas de espírito de que gosto e comemoro sem festa: a melancolia das tardes de domingo; roupa miúda estendida nas cordas; a cantiga velha dos cancelos de quintal; o relento das manhãs do campo; um canal de água que, discreto, atravessa deitado a evidente agitação dos meus olhos; um guarda-chuva preto pendendo do braço de uma viúva; o latir distante, todavia familiar, dos cães; panelas de ferro assentes nos braseiros; o canto desacertado dos vários campanários da aldeia; naturezas mortas à porta de uma loja; as misturas de luz no adro dos cruzeiros; o espaço despido e refinado das eiras; novamente o relógio morno e melancólico das tardes de domingo e, daí em diante, dos meus livros outras coisas - certas realidades de espírito - vêm acudir nas horas furiosas da minha alma; coisas das quais emanam aromas e tons cuja proveniência desconheço; do mesmo modo venho em vida, por vontade própria, a ignorar o lugar onde talvez venham a morrer, todas elas, involuntariamente.Basta que os abra, basta um clarão do seu aroma para logo minhas infecções nervosas recuarem na inclinação do sossego de uma sepultura; como fico calma. Os meus livros antigos guardam por baixo das suas encadernações pessoas dentro que me cheiram bem, que nada lêem, vivem mais nos ares do silêncio, falam pouco. Algumas cheiram a café, muitas me cheiram a terra molhada das lavras de abril, outras ainda à fragilidade, como os meus dois seios, do orvalho da alvorada sobre as gardénias. De repente conheço com saudade, como as tendo outrora abraçado e delas me tivesse fatalmente apartado, as pessoas que vivem e morrem do lado de trás do mundo e que no meu colo, grandes e no vagar da nostalgia, duram indefinidamente no instante destes livros. Sangradores e tanoeiros, boticários e alfaiates, lagareiros e ferradores, sombreireiros e pedreiros, carpinteiros e botoeiros, o coxo e o cego, a meretriz, a solteira, a tecedeira, a cozinheira, o pescador, os moradores das ruas sem mapa, as criadas que dormem no quarto das criadas. Ah, e a lavadeira.
Sei bem que vós preferiríeis histórias alegres escritas sobre fundo branco, mas se vos digo que tenho bastante vontade de falar às criadas e às tecedeiras que encontro e com quem me misturo dentro dos meus livros antigos, se vo-lo digo não vos minto e nem por isso me sinto triste; deveis acreditar que não me sinto em tudo isto assim tão triste.
Pouso em mim os livros e vou-me nos fólios. Acompanho a chegada de um jornaleiro a casa, o modo como vai cear à mesa com a mulher e os filhos em redor, todos e muitos na cercania do pão e das cerâmicas; e depois se vai à cama o jornaleiro, amparado carnamente nas duas pernas e açoitado pela aflição do dia seguinte. Olho durante muito tempo para dentro de uma mulher que no mercado se avia de legumes e outras novidades. Esta mulher que leva a filha ao seu lado - entrançadas braço no braço – não tem mãe. Eu quero ser a sua mãe, pois não pode um animal ser mais completo quando leva na vida a fortuna de haver uma mãe ainda viva. Por isso, quero; quero muito ser a mãe daquela mãe de modo que, não podendo sê-lo, prefiro chorar, tudo me escapa.
O mundo começa nestes livros; nas criadas que levam os aventais novos à mesa e trazem a alma rota quando na cama, tão cansadas, de si mesmas se esquecem. Nestes livros que desatam a parir verdadeiras alegrias nos meus olhos inquietos quando me sei na consciência de que sinto o que amargam o coxo e o cego, o hortelão e o ferrador, a cozinheira e a lavadeira, os moradores das ruas sem mapa, esta gente de beco em vida, de campa baixa em morte. Estes livros desatam a parir alegrias nos meus olhos abandonados só porque sinto que sei de consciência sentida como brilha a tristeza de um mundo que perfeito se vem durando no seu lado de trás; embrulhado nos meus livros antigos; do lado de trás onde se juntam os nós de um botão que os dedos finos da botoeira coseram sem apuro, imperfeitos. A alegria disto é nisto não haver ideal. É nisto haver um cheiro, um cheiro apenas, que incerto me chega anónimo e forte, erguendo-se muito acima do que sei ser capaz de vos dizer. A alegria disto é sentir tudo e depois parir de dentro os ares do campo, espirrar dos olhos a alegria de saber gostar de ser triste; é sentir; sentir muito antes de chegar a saber que sinto e o quanto sinto.
Quando por vezes caio na desgraça do pensamento excessivo das coisas desafectas aos meus livros e cuido de nesse estado vir a esgotar a minha infecção nervosa e de nela me asfixiar até à morte, abro para sossego do meu cérebro as suas folhas velhas e perfumadas e nelas me acho por trás do mundo - apenas isso - acompanhada de coisas outras, animais e pessoas que eu prescindo de pensar, porque nunca fazem barulho. São coisas que visivelmente se duram, que se duram numa existência inacabada, numa abundância que somente a elas pertence, sita folha a folha, no abismo esplêndido, cintilante e ardente dos meus livros antigos, no lado de trás do mundo.
Etiquetas: Memória (in)voluntária
27.3.07
22.3.07
Os teus dois olhos, meus guizinhos de brincar
Etiquetas: Memória (in)voluntária
18.3.07
As camélias morrem enquanto a luz vai toda às crianças
Etiquetas: Memória (in)voluntária
15.3.07
O teu silêncio de alcatifa
Ser-me dentro das tuas mãos pálidas e do teu silêncio de alcatifa, pai.
Etiquetas: Memória (in)voluntária
14.3.07
Quando me olhas o teu olhar não faz barulho
Mas se olhares para mim e fizeres no teu olhar um som, barulho seja, verás que ainda me comovo. Comove-me o cheiro concreto da lavoura quando na terra são rasgadas leiras fundas; ainda me comovem as rugas dos cabouqueiros, o modo como as mulheres do campo ajeitam o chapéu de palha e anunciam no regaço o abrigo breve da maternidade; comovo-me no cheiro forte das giestas conduzido vagamente pela aragem morna da primavera. E em ti.
Etiquetas: Crónicas
9.3.07
Por fim, expirar a infância
Eu quero pensar tudo. Mas quero pensar dentro de tudo. E quero, muito, sobretudo, estar em tudo. E depois, depois fenecer nisto:
Esgotada tranquilamente na luz desaguada da minha infância. Aquela luz. Aquela luz que entrava pela fenda das portas e abria derramando na cozinha os passos dos criados dos meus avós. Como um carrossel antigo, os passos dos criados. No repente vem-me um aroma de lápis afiado. O que é isto? Quando quero tudo acabo esgotada no asseio de muitas e queridas infâncias. A infância da minha boca que brincava junto das palavras de guarda de minha mãe. A infância dos pardais que demoravam sobre o lugar íntimo do poço. A infância das carícias do sol de Inverno. A infância do aroma fiel dos olhos de minha avó. Do murmúrio dos xales lançados às costas das mulheres velhas e dos bancos sozinhos de Outono.
A infância dos meus dolorosos amores espoletados pela secreta cor da noite quando a noite vinha das encostas do monte, perfumada e só. Eu amava. Eu amava com a mesma facilidade com que minha avó rezava as contas do rosário em frente ao retábulo dos apóstolos. Amava como Rute os caseiros tristes que vinham pagar as rendas à sombra do alpendre e amava sobretudo as suas mulheres caladas. Amava-as com grito, as suas mulheres tão caladas.
Sempre amei mais do que tive, sempre amei mais do que quis ter. Agora quero tudo por fenecimento. Saber como morre uma flor, um pássaro, o último Tempo, a infância, o primeiro Tempo. No repente, o aroma de lápis afiado. O que é isto?
[sandra costa]
Etiquetas: Memória (in)voluntária
4.3.07
Até ao fim
pois não é isso que eleva.
E não vale a pena ter arquivos
nem perder tempo com manuscritos velhos.
O caminho da criação é a entrega total
e não fazer barulho ou ter sucesso.
Infelizmente, nada significa
como uma alegoria andar de boca em boca.
Mas é preciso viver sem pretensões,
viver de tal modo que no fim de contas
venha até nós um amor ideal
e ouçamos o apelo dos anos que hão-de vir.
O que é preciso rever
é o destino, não antigos papéis;
lugares e capítulos de uma vida inteira
anotar ou emendar.
E mergulhar no anonimato,
e ocultar nele os nossos passos,
como foge a paisagem na neblina
em plena escuridão.
Que outros nesse rasto vivo
seguirão o teu caminho passo a passo,
mas tu próprio não deves distinguir
a derrota da vitória.
E não deves por um só instante
recuar ou trair o que tu és,
mas estar vivo, e só vivo,
e só vivo - até ao fim.
Boris Pasternak. É impróprio ser famoso. [Trad. Manuel de Seabra]
Etiquetas: Fontes
3.3.07
Mais rostos do que pessoas
Etiquetas: Fontes
2.3.07
O livro dos retratos
Etiquetas: Recorte
1.3.07
O futuro do passado
Etiquetas: Recorte
















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